O Preço de Falar Sobre Swing
Quando comecei a escrever sobre swing, o que mais chamava atenção não era o choque moral — era o vazio. Quase não havia informação acessível, organizada ou minimamente responsável sobre troca de casais no Brasil. O pouco que existia se limitava ao erotismo raso, à curiosidade voyeurística ou a relatos desconectados de qualquer reflexão.
Não se falava de acordos, de limites, de impacto emocional, de convivência social, de consequências reais. Quem queria entender o que era o swing precisava juntar pedaços, adivinhar caminhos e errar sozinho. Escrever nasceu daí: da necessidade de transformar uma prática cercada de silêncio e mistério em algo que pudesse ser pensado, conversado e elaborado.
Falar sobre swing nunca foi neutro. Nunca foi só relatar experiências, nem apenas defender uma prática entre adultos consentindo. Desde o começo, falar sobre swing significou ocupar um lugar incômodo — socialmente, moralmente, profissionalmente. Um lugar que cobra. E nós escrevemos mesmo assim porque nossa pretensão não era fama ou levantar bandeiras, era simples vontade de não viver marginalizado.
Por que falar sobre swing gera rótulos e exclusão social?
O primeiro preço de falar sobre swing aparece rápido: o rótulo. Quando você fala sobre swing, você deixa de ser alguém que escreve para virar “o casal do swing”. Tudo o que vem depois — reflexão, argumento, estudo, cuidado — passa a ser filtrado por essa lente única. O sexo vem antes da escuta, bem como o julgamento aparece antes da leitura.
Mesmo quando o texto não é sobre sexo! Estou falando sobre vínculo, comunicação, limites, ética… e me aparece uma galera comentando “gostosa”, “linda”, “queria tanto…”.
Perguntei no meu instagram profissional o que as pessoas gostariam de ver lá. Apenas 4 ou 5 respostas estavam alinhadas à psicologia, sexologia ou mentoria; o restante era “você pelada”.
Existe um julgamento moral sobre quem fala de swing?
Existe também um preço moral, mais silencioso e persistente. A confusão entre liberdade e promiscuidade. A ideia de que falar com responsabilidade sobre desejo ameaça a família, os valores, a ordem. Uma sociedade que consome sexo o tempo todo, mas se escandaliza quando alguém resolve pensá-lo com seriedade.
Esse julgamento não vem só de fora do meio liberal. Muitas vezes, vem de dentro. Porque falar — de verdade — exige coerência. E coerência incomoda, principalmente a quem está se beneficiando do status quo.
Falar sobre swing afeta a vida profissional?
Com o tempo, o preço de falar sobre o swing se estende para o campo profissional. Portas que não se abrem. Convites que não chegam. Silêncios educados. A sensação constante de que é preciso provar, repetidas vezes, que reflexão e sexualidade podem ocupar o mesmo corpo. Como se pensar fosse permitido apenas a quem se mantém dentro de certos limites morais aceitáveis.
Nos primeiros anos de escrita, isso aparecia de forma aparentemente inofensiva. Um dos “elogios” que eu mais ouvia era: “nossa, você é linda e escreve bem!”. A frase carrega um subtexto conhecido: a surpresa de ver inteligência onde o corpo já foi lido antes. Na minha adolescência, isso já estava escancarado na música Loira Burra, do Gabriel Pensador — a mulher ou é bonita, ou é inteligente. As duas coisas juntas ainda soam como exceção.
No campo profissional, falar sobre swing ativava exatamente esse filtro. A sexualidade passava a anteceder a escuta. O corpo vinha antes do currículo. A fala precisava se justificar duas vezes. E esse foi mais um mito que precisei derrubar, repetidas vezes, dentro e fora do meio liberal, para sustentar um lugar profissional onde pensamento, ética e sexualidade pudessem coexistir sem que uma anulasse a outra.
Preço emocional
E existe o preço emocional. Talvez o mais alto. Porque quando você fala publicamente sobre swing, o ataque raramente é só ao texto. Ele atravessa e mira a pessoa. O corpo. A história. A moralidade vira arma. A agressividade vem disfarçada de opinião. Estar nesse lugar de fala exige algo que quase nunca é reconhecido: estrutura psíquica para não recuar toda vez que tentam te reduzir.
Há um poema do Charles Mackay que eu amo e que explica isso melhor do que qualquer teoria:
“Você diz que não tem inimigos, é?
Ai! Meu amigo, a bazófia é fraca.
Aquele que se meteu na contenda do dever,
a que o bravo se submete, certamente fez rivais!
Se não tem nenhum, pequeno é o trabalho que fez.
Você não golpeou o quadril de um traidor.
Você não tirou uma xícara de lábios perjurados.
Você nunca transformou o errado em certo.
Você foi um covarde na luta”
Falar sobre swing nos colocou exatamente aí. Não por desejo de confronto, mas porque toda vez que alguém levanta uma fala fora do script social, gera atrito. Verdades que não atacam ninguém (elas simplesmente existem) já são suficientes para gerar resistência quando você as pontua.
E ainda assim, continuamos.
Algumas pessoas ainda perguntam: “por que vocês continuam falando de swing?”. A resposta passa, justamente, por todos esses preços já pagos. O rótulo já está dado. Já somos o “casal do swing”, já fomos excluídos de determinados espaços, já fomos julgados antes mesmo de sermos escutados.
Ao mesmo tempo, temos plena consciência do nosso trabalho — profissional, social e afetivo — e do impacto real que ele produziu ao longo dos anos. Sabemos da nossa contribuição para mudanças importantes, dentro e fora do meio liberal, especialmente na forma como relações, escolhas e responsabilidade afetiva passaram a ser (re)pensadas.
Falávamos de sexo, sim. Mas falávamos, sobretudo, de saúde relacional, de escolhas conscientes, de responsabilidade afetiva, de orientação relacional — mesmo antes desse nome existir.
Por que continuar falando sobre swing é um posicionamento político?
Hoje, seguimos falando não apenas por causa do swing — nem sequer pelo que ele provoca nas relações — mas por posicionamento político real. Já não é mais possível ocupar esse lugar sem entender o contexto maior em que ele existe. Não dá para se dar ao luxo de ficar de fora do movimento de desmistificação de outras formas de amar, num momento histórico em que vínculos estão sendo regulados, julgados e, muitas vezes, atacados.
Este texto marca isso dentro da série de 15 anos do portal. Não como denúncia, nem como vitimização, mas como posicionamento. Falar sobre swing nunca foi gratuito. E seguir falando, hoje, é também um ato político. Num mundo que tenta enquadrar vínculos, controlar desejos e padronizar afetos, insistir na autonomia relacional é insistir em mudança social.
Beijosssssssss
Acompanhe a série especial dos 15 anos
Ao longo do ano, novos textos vão revisitar nossa história, nossos custos, nossas escolhas e as transformações do meio liberal
Se você chegou agora, seja bem-vindo.
Se está aqui há anos, essa história também é sua.
Nunca tinha parado para pensar no swing como um ato político, mas faz todo sentido. Insistir na nossa autonomia e na liberdade de se relacionar é uma forma de resistir contra muita coisa errada que tem por aí. Obrigado por não desistirem, mesmo com todo o preço alto que isso cobra. Vocês inspiram muitos casais a viverem a verdade deles, doa a quem doer.
Perfeitas colocações. Que bom seria poder ter conversas assim de maneira tranquila. Parabéns!!!
eu a esposa estamos inciando no mundo liberal, porém estamos encontrando extrema dificuldade em fazer realmente amizade com casal. ou eles fogem ou só querem saber de sexo. Muito difícil mesmo.
Infelizmente ser “subversivo” tem um custo. Curto muito ler vocês, acompanho a trajetória a algum tempo. E sei quão difícil é se “desvestir” uma vida pacata e monogâmica, para uma vida apimentada. Acredito que a parte mais difícil, é o deixar de ver a pessoa ou o profissional, para enxergar somente o objeto de desejo, o carnal… Mas, confio que as coisas irão melhorar, espero… Abraços, continuem e não deixem o mundo liberal…