15 Anos de Portal

Antes de virar portal, fomos um blog: como o swing nos trouxe até aqui

Em 2011, a internet era outro lugar.
Não existiam stories, reels, threads nem a sensação constante de que tudo precisava ser dito em quinze segundos. Blogs ainda eram território de permanência. Textos longos eram lidos. Comentários viravam conversas. As pessoas voltavam ao mesmo endereço virtual como quem frequenta um café conhecido.

O Brasil e a internet em 2011

No Brasil, aquele era um momento específico da internet. O Facebook começava a ocupar espaço, mas ainda não ditava completamente as regras do discurso. O Orkut resistia como território de comunidades e fóruns. O Instagram tinha acabado de nascer e era apenas um aplicativo de fotos, sem influência real. Não existiam stories, reels, nem a lógica de engajamento em tempo real que hoje atravessa tudo.

Segundo o pesquisador Clay Shirky, um dos principais pensadores da cultura digital daquele período, os blogs eram espaços onde “as pessoas deixavam de ser apenas audiência para se tornarem participantes ativos da conversa pública”. Não se tratava de alcance, mas de voz. Ter um blog era ocupar um lugar de fala — ainda que pequeno, ainda que anônimo.

Foi exatamente nesse cenário que, em agosto de 2011, nasceu o que mais tarde se tornaria o Portal Marina e Marcio. Naquele momento, porém, ele era só isso: um blog pessoal, feito em casa, sem equipe, sem estratégia de marca, sem qualquer pretensão de se tornar referência.Por que escrever

Em 2011, nós já éramos adeptos do swing havia cerca de cinco anos. Não estávamos começando a experimentar — estávamos começando a entender. A prática já tinha atravessado fases, inseguranças, ajustes de rota e fortalecido algo que, à época, quase ninguém associava ao swing: a relação do casal.

Por que criar um blog de swing naquela época

Eu estava no fim da graduação em Psicologia. O olhar clínico, ainda em formação, já atravessava tudo: os afetos, os acordos, os conflitos, os silêncios. Marcio vinha do mesmo lugar de curiosidade e reflexão. Mas havia um problema óbvio: nós não tínhamos com quem conversar!

Pai, mãe, primos, churrasco de família? Impossível. Amigos próximos? Arriscado. O que viria a ser conhecido mais tarde como “meio liberal” ainda era extremamente fechado, sexualizado e pouco reflexivo. Então veio a pergunta inevitável: “Contamos pra quem?”

A resposta foi simples e, ao mesmo tempo, revolucionária para nós: para quem quisesse ler.

A internet, como ela era em 2011, oferecia algo raro: anonimato com profundidade. Era possível escrever sem se expor totalmente, mas também sem superficialidade. Foi aí que o blog apareceu como resposta.

O primeiro post e a primeira casa de swing

O primeiro texto foi escrito no fim de agosto de 2011 e contava algo que, até então, guardávamos quase como um segredo: a nossa primeira vez em uma casa de swing.

Já estávamos casados havia oito anos. Todos os aniversários de casamento seguiam o mesmo roteiro: um bom restaurante, comida, refrigerante, casa. Até que, naquele ano, algo mudou — sem aviso, sem planejamento explícito.

Saímos de casa arrumados demais para um jantar comum: eu, de vestido curto, maquiagem de balada e bota preta de cano alto. Marcio, de jeans e camisa com um corte mais moderno. Demos boa noite aos filhos, que ficariam com os avós, e entramos no carro.

No meio da Marginal Tietê, veio a pergunta que disse tudo:
Onde vamos hoje?
Não sei… — respondi, já sabendo exatamente.

Nossos olhares se cruzaram e não foi preciso dizer mais nada. O destino tinha nome: Inner Club, uma casa de swing. A curiosidade, que já existia havia algum tempo, venceu o medo.

Esse foi o primeiro texto do blog. Cru, pessoal, sem qualquer pretensão de ensinar. Apenas contar.

Anonimato, proteção e contexto social

Tudo era feito no mais absoluto anonimato. Nomes fictícios. Fotos pensadas. Nenhuma associação com vida profissional, filhos ou família. Como vocês bem imaginam, essa é a estratégia de sobrevivência da maioria dos casais liberais até hoje.

Em 2011, falar publicamente sobre swing não era apenas tabu: era risco real. Quase ninguém assumia o que fazia, e os poucos que assumiam, eram mal vistos também nas comunidades swingers. Não havia discurso de diversidade relacional, nem linguagem para discutir acordos, ética ou saúde emocional. O que existia era preconceito, caricatura e silêncio.

Permanecemos anônimos até o início de 2020, quando começamos a apresentar o Sexlog TV. Foi quase uma década de proteção estratégica, pois já não acreditávamos mais em monogamia há muito tempo. E não assumir quem éramos de verdade, nos fazia muito mal.

Quando o swing deixou de ser só sexo

Com o tempo, algo interessante aconteceu. O foco dos textos mudou. Os temas se ampliaram. A escrita amadureceu e o blog começou a ganhar visibilidade.

Já não contávamos nossas aventuras sexuais, apenas. Falávamos de:

  • comunicação
  • ciúmes
  • limites
  • acordos
  • convivência social
  • impacto do swing na relação

Num cenário em que quase ninguém fazia isso, o blog passou a ser visto como referência. Vieram leitores fiéis, comentários longos, discordâncias respeitosas. Vieram amigos. Vieram também inimigos — quem nunca, né?

Manter um blog ativo por tantos anos, mesmo naquela época, já era um feito. Hoje, olhando para trás, fica ainda mais claro o quanto aquilo era resistência a um propósito maior do que “falar de swing”.

Por que começamos pelo swing

Começamos pelo swing porque era o que tinha nome. Era o termo disponível, ainda que estreito demais para dar conta do que vivíamos. Desde o início, porém, nosso interesse nunca se limitou à troca de casais — embora sim, nós quiséssemos fazer troca de casais, e fizemos muitas vezes.

Foi justamente mergulhando nessa prática que percebemos que o swing não se reduz ao ato sexual. Ele desorganiza certezas, exige conversa, provoca rearranjos, expõe conflitos e, quando há disposição, produz crescimento.

A reviravolta aconteceu quando passamos a tratar o swing não apenas como sexo — esse lugar onde a sociedade concentra seus tabus —, mas como algo que atravessa saúde emocional, vínculo, escolhas, filosofia de vida e reflexão. Aquilo que socialmente costuma ser visto como “bom” raramente é associado ao desejo. Por isso começamos a trazer assuntos que extrapolavam o sexo – mas que todos os swingers convivem diariamente. Fomos um dos primeiros sites de swing a:

O blog deixou de ser apenas um espaço de relato e se tornou um lugar de orientação.

Criar asas: liberdade, vínculo e escolha

Em algum momento dessa trajetória, sentimos a necessidade de um símbolo. Algo que traduzisse a essência do que fazemos aqui. Assim nasceu a borboleta que hoje acompanha o portal.

As asas sempre falaram de liberdade, mas nunca de uma liberdade ingênua. Para nós, liberdade e segurança não só andam juntas como é a melhor forma de relacionamento . Por isso, o corpo da borboleta é um casal. As asas são simétricas, mas não iguais. Elas só sustentam o voo quando funcionam juntas. Não se levanta do chão com uma asa só (não é mesmo?). Não se constrói uma relação saudável sem escuta, responsabilidade e escolha contínua.

O swing, desde o início, tem sido isso para nós: um meio, não um fim. Uma prática que instiga movimento, provoca perguntas, desmonta automatismos e exige consciência. Criar asas nunca significou sair voando sem direção. Significa poder escolher — inclusive voltar para casa — sem medo, sem culpa.

É por isso que, quinze anos depois, continuar falando de swing e de meio liberal não é repetição. É posição. Em um tempo que tenta normalizar apenas um jeito de amar, de desejar e de se relacionar, insistir na diversidade relacional é um ato político. Não no sentido partidário, mas no sentido mais profundo: afirmar que cada pessoa e cada casal têm o direito de construir sua própria forma de vínculo, desde que haja consentimento, responsabilidade e respeito.

Antes de ser portal

Antes de virar portal, fomos um blog. E isso diz muito sobre quem somos.

Diz que começamos pequenos, anônimos, escrevendo porque precisávamos. Diz que atravessamos mudanças sociais, tecnológicas e morais sem abandonar o essencial. Diz que seguimos acreditando que falar de swing, de não monogamia, de desejo e de vínculo é falar de VIDA, não de desvio.

A borboleta continua aqui porque ainda acreditamos em asas.
E porque, quinze anos depois, escolher continuar em vôo, segue sendo nossa forma de existir no mundo.

Este texto inaugura a série especial dos 15 anos do Portal Marina e Marcio. Ao longo dos próximos meses, vamos revisitar nossa história, refletir sobre as transformações do meio liberal e afirmar, com ainda mais clareza, por que seguimos aqui. Se esse caminho também atravessa você, acompanhe o portal e os próximos textos desta série. A conversa continua.

Beijosssssss

Um comentário sobre “Antes de virar portal, fomos um blog: como o swing nos trouxe até aqui

  • Achei interessante o link de trabalhos científicos, seria interessante propagar isso aqui no portal, para que tenhamos acesso a trabalhos relacionados…

    Resposta

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *