Morre Stanlay Miranda, o Rei do Pornô
É com pesar que comunicamos o falecimento de Stanlay Miranda, ocorrido ontem.
Stanlay foi um personagem marcante da cultura brasileira contemporânea, tendo atuado como empresário e produtor audiovisual, além de ser uma voz provocadora em debates sobre comportamento, moralidade, mercado e liberdade individual. Sua trajetória, marcada por controvérsias e pioneirismo, ajudou a expor contradições sociais e a antecipar discussões que hoje ocupam o centro do debate público.
Trabalhamos com o Stanlay gravando um filme 360º para a última edição da Erótika Fair (2017), depois filmamos uma espécie de minissérie sobre um casal experiente que encontra um casal iniciante numa casa de swing. E sempre nos encontrávamos nos eventos do mercado adulto.
Stanlay foi também um dos primeiros convidados do Ponto Z, participando de um episódio que permanece disponível como registro histórico de sua visão de mundo e de sua contribuição para o diálogo aberto sobre temas considerados tabus.
Neste momento de despedida, prestamos solidariedade à família, amigas, amigos e a todas as pessoas que foram atravessadas por sua história. Ficam as memórias, os afetos e as reflexões que sua passagem deixa. A seguir você lê um pedaço da participação do Stanlay no Ponto Z Podcast.
Butman no Brasil: memórias, técnica e transformação na indústria pornográfica
Sou Stanlay Miranda. Passei de oito anos numa multinacional para liderar um projeto que nunca imaginei: trazer para o Brasil uma operação ligada ao nome Buttman, conhecer grandes diretores internacionais e construir uma cadeia produtiva de conteúdo adulto. Ao longo do caminho aprendi que pornografia é, acima de tudo, produção: técnica, gestão, riscos e muitas decisões pessoais.
Da General Motors a John Stagliano: o encontro que mudou tudo
Trabalhei oito anos na General Motors e, por uma série de coincidências, acabei nos Estados Unidos. Lá conheci John Stagliano, o famoso Buttman. Ele gostou do Brasil e quis produzir por aqui. Fui a pessoa que o recebeu, traduzi e ajudei na produção das primeiras filmagens.
Foi assim que nasceu a ideia de abrir a marca Buttman no Brasil. Recebi um convite para tocar esse projeto e, sem dinheiro e cheio de vontade, escolhi montar a empresa. Em pouco tempo chegamos a faturamentos impressionantes — meses em que vendíamos muito e crescemos rápido. Essa fase foi eletrizante, mas também trouxe desafios pessoais e administrativos que eu só vou entender totalmente depois.
Produção e técnica: o que pouca gente imagina
Muita gente pensa que filmar uma cena de sexo é simplesmente “ligar a câmera”. Não é. É conjunto: roteiro mínimo, direção, posicionamento de câmera, iluminação, edição e, acima de tudo, logística humana. Uma cena que resulta em 20 minutos pode levar duas horas de gravação. Há pausas, ajustes, reinícios.
- Direção e performance: muitos atores não sabiam beijar, tocar, criar sensualidade. O papel do diretor é orientar e garantir que tudo pareça natural.
- Posicionamento de câmera: close-ups, enquadramentos e continuidade exigem planejamento. Às vezes é preciso segurar poses para não perder o enquadramento.
- Simulação de práticas: uso de cremes, efeitos e coordenação para manter a ilusão sem comprometer a segurança física.
- Making-of: mostrar os bastidores foi parte do sucesso. O público queria entender como um filme se faz.
O que a TV e as novelas fazem muito bem é transmitir sensualidade; nós precisávamos disso também, não só do explícito.
Consentimento, limites e segurança no set
Produzir conteúdo adulto exige responsabilidade. Cada pessoa precisa autorizar, assinar direitos de imagem e receber informações claras sobre o que será feito. No set, é regra: qualquer sinal de desconforto e a cena para.
O universo fetichista e práticas mais extremas existem e têm público, mas o que sempre defendi foi que haja comunicação, limites e um acordo claro entre todos os envolvidos. Respeito à integridade física e emocional é não negociável.
Do auge à queda: ganhos, perdas e o preço das relações
Houve meses em que faturávamos valores que hoje parecem inacreditáveis. Com crescimento vieram pressões: sócios, diretores comerciais, disputas internas e decisões pessoais que me custaram caro. Divórcios e acordos sucessivos foram dilapidando patrimônio até sobrar quase nada.
Não foi só o mercado que mudou. Houve também questões humanas: gente que se aproximou pelo poder, disputas por controle e erros de gestão. Mesmo com um produto de qualidade e uma operação profissional, as relações pessoais podem derrubar tudo.
Internet, pirataria e novas plataformas: reconfigurando o mercado
A chegada da internet e o fácil acesso mudaram a dinâmica de consumo. Plataformas de hospedagem gratuita, pirataria e compartilhamento massivo reduziram receitas. Por outro lado, surgiram modelos como OnlyFans que deslocaram poder e renda para criadores independentes.
Isso trouxe duas consequências claras:
- Redistribuição da renda: quem domina audiência em plataformas digitais passou a controlar sua própria monetização.
- Exigência de documentação: redes e agregadores passaram a pedir mais comprovação de idade, direitos e contratos, elevando o custo e a complexidade da operação.
Inteligência artificial: oportunidade e risco
Agora enfrentamos outra revolução: a inteligência artificial. É possível criar imagens e vídeos hiper-realistas usando apenas uma foto. Isso questiona autoria, direitos de imagem e até o emprego de profissionais de produção.
Existem cenários possíveis:
- Uso ético: contratos explícitos que autorizem a criação de conteúdos sintéticos a partir da imagem de alguém.
- Uso predatório: deepfakes e reprodução não autorizada que podem arruinar reputações e gerar danos legais e pessoais.
O mercado terá que se adaptar rapidamente: regulamentação, verificação de identidade e novos modelos de monetização serão essenciais para proteger criadores e consumidores.
Ética, pornografia para mulheres e novos debates
Nos últimos anos apareceram propostas para tornar a pornografia mais sensível e inclusiva: conteúdo voltado para mulheres, produções “éticas”, abordagem consensual e narrativa. Eu sempre procurei aproximar meu trabalho dessa sensibilidade, sem romantizar, mas buscando uma narrativa que vá além do clichê do entregador de pizza.
Essas iniciativas dependem de escolhas de produção: direção, roteiro, enquadramento e respeito às pessoas envolvidas. Não existe fórmula única, mas existe um consenso: transparência e cuidado melhoram a qualidade do produto e a segurança de quem participa.
Aprendizados pessoais e recuperação
Perdi muito: dinheiro, propriedades, relacionamentos. Passei por depressão e problemas de saúde. Foram anos difíceis, com queda rápida e necessidade de reconstrução física e emocional.
Hoje a prioridade é a saúde mental e física. A recuperação veio com reabilitação, apoio de amigos e focar em práticas mais saudáveis. Aprendi que sucesso financeiro não substitui cuidado pessoal e que é fundamental escolher bem as pessoas ao redor.
Principais lições
- Produção é profissionalismo: planejamento, documentação e respeito tornam o trabalho sustentável.
- Consentimento é a base: em sets e na vida pessoal, ouvir e respeitar limites é essencial.
- Adaptação é obrigatória: quem não entende a internet e a IA vai perder espaço; quem se adapta sobrevive.
- Cuide da saúde: carreira e dinheiro não compensam perder a própria vida e bem-estar.
O mercado adulto está em transformação constante. Entre inovação e controvérsia, a escolha responsável é construir práticas que preservem a integridade das pessoas e a qualidade do conteúdo. Se pensar em produzir, trabalhar ou consumir, lembre-se: ética, técnica e cuidado sempre vêm antes do espetáculo.