Abrindo os olhos sobre o filme “De Olhos Bem Fechados” – Parte 2
TESÃO x CÍUME: O CONFLITO QUE O FILME JOGA NA NOSSA CARA
A maioria dos homens acha que tem só dois modos quando se trata das fantasias das parceiras: ou fica “de boa”, ou fica “puto”. Mas “De Olhos Bem Fechados” esfrega na nossa cara um negócio bem mais desconfortável:
👉 o conflito entre tesão e ciúme.
Aquele curto-circuito emocional em que a cabeça fala: “Eu quero” e ao mesmo tempo “Eu odeio querer isso”.
Não é frescura, é humano. E é exatamente isso que o filme escancara.
QUANDO O MESMO DESEJO VIROU AMEAÇA
Por trás da trama, existe algo que quase ninguém nomeia, mas todo homem já sentiu:
- tesão pela fantasia,
- ciúme da própria fantasia,
- raiva de sentir tesão,
- vergonha de admitir tudo isso.
Na psicanálise, chamamos isso de ambivalência: o mesmo objeto que desperta amor também desperta agressividade.
A mulher que eu amo também é a mulher que, no meu imaginário, “poderia me trair”.
A fantasia que me excita é a mesma que fere o meu ego.
E é aqui que o Bill entra em cena como o retrato do homem moderno: perdido entre o que sente, o que acha que “deveria” sentir e o que não tem coragem de admitir nem pra si mesmo.
A CENA DO SONHO DA ALICE: O LABIRINTO MASCULINO
Quando a Alice conta o sonho erótico dela, algo acontece no Bill que é muito maior do que “ciúme”.
Ele fica:
- excitado,
- furioso,
- transtornado,
- inseguro.
Tudo ao mesmo tempo.
Por quê? Porque naquele momento o Bill descobre que:
- o corpo da mulher dele tem vida própria,
- o desejo dela não está sob controle dele,
- na fantasia dela não é ele quem ocupa o lugar principal.
Isso não é só sobre sexo. É sobre narcisismo ferido:
“Como assim ela desejou outro?
Como assim ela sentiu tesão sem mim?
Como assim ela teve prazer num lugar onde eu não existo?”
“De Olhos Bem Fechados” coloca o homem num espelho que ele detesta olhar, o da própria fragilidade.
QUANDO O HOMEM NÃO SABE O QUE FAZER COM O QUE SENTE
Esse conflito entre tesão e raiva não nasce do nada. Ele vem de uma educação emocional pobre, de uma masculinidade ensinada a ser invencível, de séculos dizendo pro homem que “mandar” no desejo da mulher é prova de valor.
Resultado?
Quando a fantasia dela aparece, o homem não tem repertório emocional, não sabe conversar, não sabe se vulnerabilizar, e então, reage com raiva, ironia, ataque, punição ou fuga.
Ele não sabe dizer “Isso mexe comigo, me assusta, me deixa inseguro. Vamos falar sobre?”. Então ele faz o que aprendeu, entra em modo controle ou entra em modo destrutivo.
IGNORAR ESSE CONFLITO CRIA MONSTROS INTERNOS
O problema não é sentir tesão e raiva ao mesmo tempo. O problema é não ter linguagem pra isso.
Quando o homem ignora esse curto-circuito:
- o desejo vira culpa,
- a culpa vira agressividade,
- a agressividade vira frieza, traição, sabotagem do relacionamento,
- e a parceira passa a conviver com um homem que ela não reconhece mais.
Monstros internos não nascem do nada. Eles são, muitas vezes, desejos legítimos somados à vergonha de tê-los.
O filme é brilhante porque mostra que o perigo não está na fantasia em si, mas no silêncio que a cerca.
PRA FECHAR
Todo homem, em algum momento, já viveu esse lugar.
É o querer, mas não poder querer! O sentir tesão, mas sentir aquela dor no peito ao mesmo tempo. Amar, mas ter raiva do que o amor desperta dentro de si.
A questão não é eliminar o conflito.
É aprender a conversar sobre ele, sem transformar a fantasia em crime e sem transformar a insegurança em violência.
🌀 O que De Olhos Bem Fechados revela não é um homem mau.
É um homem não elaborado emocionalmente.
Se você conhece alguém que vive esse curto-circuito entre tesão e raiva, manda esse post pra ele.
E se você é esse cara, salva pra reler com calma.
Talvez o filme não seja sobre o Bill.
Talvez seja sobre você.
Abrindo os olhos sobre o filme “De Olhos Bem Fechados” – Parte 1
Que tal um dia vc comentar/analisar o filme “proposta indecente~?
Boa ideia, já vou colocar aqui na fila a análise desse filme.
Obrigado pela dica!