O Feitiço de Ser Livre
Com o Halloween se aproximando, o mês de outubro ganha um clima místico, cheio de fantasias, mistérios e, claro, bruxas. Mas, para além das vassouras e caldeirões, quero falar da minha relação com a “bruxaria” – não a das histórias de terror, mas a que pulsa em toda mulher que ousa ser sexualmente livre e questionar o lugar que a sociedade patriarcal reservou para ela. Desde o momento em que me reconheci como mulher, entendi que ser um pouco bruxa é quase uma necessidade para sobreviver num mundo onde o script já está escrito: ou você se encaixa, ou é “queimada” na fogueira dos julgamentos.
Desde pequena, questionei as amarras impostas pelo pai, pela Igreja, pelo Estado. “Meninas não jogam futebol”, “mulheres não sentam de perna aberta”, “aceita que dói menos” – essas frases ecoavam como tentativas de apagar meu fogo interno. Mas a mulher, como bem apontou a filósofa Simone de Beauvoir, não nasce mulher, torna-se mulher (Beauvoir, 1949). E, nesse processo, ela descobre que a dor é uma companheira constante. Seja a dor física do corpo ou a social de ser silenciada, quando uma mulher pára de temer a dor e aprende a transmutá-la em força, isso, minha gente, é pura alquimia.

…Mas eu não era homem
Eu tinha muitos sonhos de infância, era super capaz mas faltava um detalhe: eu não era homem. Logo cedo na vida, entendi o que era o patriarcado. Em vez de entrar no jogo deles, criei o meu próprio caminho, onde era preciso. Como já dizia Audre Lorde, “não fui feita para sobreviver, mas para prosperar” (Lorde, 1984). E prosperar, para mim, significava questionar, desafiar, ser insubordinada.
Quando comecei a perceber as desigualdades salariais e as restrições impostas às mulheres, especialmente em espaços religiosos aos quais pertencia, ficou claro que ali não havia espaço para alguém como eu. Uma mulher que não aceita dogmas cegamente, que exige ser ouvida, que reivindica seu corpo e seu prazer. Foi nesse caminho que encontrei minha sexualidade – e, com ela, a força do feminino. Descobri que, desde a infância, já havia sinais dessa potência: a curiosidade, a vontade de explorar, o desejo de ser livre. Hoje, vivo um relacionamento liberal com meu marido, ensino outras mulheres a se reconciliarem com sua sexualidade e celebro o autoconhecimento. E isso, em nossa sociedade, é classificado muitas vezes como bruxaria.
A Figura da Bruxa
A figura da bruxa sempre esteve ligada à mulher que desafia normas. Na Idade Média, como aponta Silvia Federici, as bruxas eram as mulheres que conheciam os segredos da natureza, do corpo, da cura – e, por isso, eram temidas e perseguidas (Federici, 2012). Eram as insubordinadas, as que recusavam o controle patriarcal, as que ousavam ser donas de si. Hoje, a bruxa moderna é a mulher que abraça sua sexualidade sem vergonha, que publica fotos sensuais, que fala abertamente sobre desejo. Claro que isso choca. Já sei que vão arregalar os olhos, apontar o dedo e me chamar de “vagabunda”, “perdida” ou, agora, “bruxa”. Mas eu visto esse rótulo com orgulho. Ser bruxa é ser livre, é conhecer o poder do próprio corpo, é rejeitar a normatividade.
A sexualidade feminina, tão demonizada, é um dos maiores símbolos dessa bruxaria. Quando uma mulher se assume sexualmente livre, ela desafia séculos de repressão. Como diz Camille Paglia, “a sexualidade é o ponto onde o humano encontra o divino” (Paglia, 1990). E não é exatamente isso que faz uma bruxa? Conectar-se ao sagrado, ao primal, ao mistério da vida? Então, que venha o Halloween, que venham as fogueiras – mas, dessa vez, elas não nos queimam. Elas iluminam nosso caminho.
Pela lei da magia – ou, se preferir, da vida –, tudo o que você faz retorna. Então, que tal espalhar respeito, liberdade e prazer? Eu estarei na Inner Club celebrando a liberdade, o autoconhecimento e a maravilha que é ser uma mulher sexualmente livre. E é sempre bom lembrar que ser sexualmente livre não tem nada a ver com fazer sexo de qualquer jeito, em qualquer lugar, com qualquer um. É muito mais sobre assumir os próprios desejos sem medo de julgamentos do que qualquer outra coisa. Você vem comigo?
Seja sua própria bruxa, conheça seu corpo, celebre sua potência. Happy Halloween!
Beijosssssssssssss
Que tal algum dia comentar sobre Angela Diniz? Vejo ressonâncias entre vocês…
Muitas!! A história dela me pega profundamente. Estou me organizando para escrever sobre ela.