7 Tabus Sobre Maternidade em 2026
Uma reflexão sobre culpa materna, sexualidade, solidão, violência normalizada e os desafios da maternidade contemporânea
Durante muito tempo, a maternidade foi tratada como um território sagrado e intocável. Um papel social cercado de idealizações, expectativas e silêncios. Mas talvez justamente por isso existam tantos assuntos relacionados às mães que continuam causando desconforto, julgamento e até revolta quando são colocados em debate.
Em 2026, ainda é comum esperar que mães sejam fortes o tempo todo, gratas o tempo todo e realizadas o tempo todo. Como se gerar um filho automaticamente anulasse qualquer ambivalência humana. Só que mulheres reais são mais complexas do que os roteiros sociais permitem.
Lembro quando tive meu primeiro filho. Eu fui a primeira da turma de amigas e ser mãe, e sempre que alguma delas vinha me visitar eu falava como estava sendo difícil pra mim. Me disseram a vida inteira que ter filho era a coisa mais maravilhosa do mundo, mas nunca entraram em detalhes. Não era falado sobre detalhes práticos do pós parto como dores da recuperação, dificuldades da amamentação, esgotamento diante de um choro incessante…
E eu decidi que nenhuma amiga minha passaria pela maternidade sem saber de todo esse lado nada romântico de ter um filho.
Hoje eu compreendo claramente que falar sobre maternidade de forma honesta não diminui o amor materno. Pelo contrário: humaniza mulheres que passaram séculos sendo pressionadas a caber em personagens impossíveis.
Por isso, neste dia das mães eu trouxe 7 tabus que ainda insistem em existir pra gente refletir e começar a mudar as coisas dentro da gente.
1 – Nem toda mulher quer ser mãe
Ainda existe esse mito de que toda mulher nasceu para a maternidade, como se o desejo de ter filhos fosse obrigatório, natural e universal. E claro que não é!
Existem mulheres que simplesmente não desejam ser mães. Outras que até desejam, mas escolhem não ser. Algumas priorizam carreira, liberdade, projetos pessoais, saúde mental ou outros modelos de vida. E nenhuma dessas escolhas deveria transformar alguém em “menos mulher”.
Infelizmente a maternidade ainda é vista como um destino feminino inevitável e não como uma possibilidade entre tantas outras. Penso até que quando falamos sobre liberdade feminina ela deveria começar não com o sexo, mas com o direito de escolher não ter filhos.
2 – Mães continuam sendo mulheres desejantes
Existe algo curioso na forma como a sociedade enxerga mães: elas podem cuidar, proteger, acolher e se sacrificar… mas não podem desejar. A sexualidade materna continua sendo um tabu gigantesco! É como se uma mulher deixasse de existir eroticamente depois da gravidez. Como se maternidade e desejo fossem incompatíveis.
Só que o corpo materno continua sendo um corpo vivo, sensível e sexual. Mulheres grávidas transam. Mulheres mães sentem tesão. Fantasiam. Desejam. Sentem prazer. Talvez o desconforto coletivo exista porque fomos ensinados a dividir mulheres em categorias: as “respeitáveis” e as “desejantes”. E essa ideia é tão forte que as próprias mulheres entram num “modo mãe” tão obsessivo que chega a comprometer a saúde e o bem estar, não só delas como do casal também.
Quantos casais deixam de transar entre si quando a mulher vira mãe? Quantos casais deixam de ser tratar por nomes carinhosos para chamarem um ao outro de “pai” e “mãe”?
3 – A maternidade pode ser solitária
Existe uma romantização enorme em torno da ideia de “constituir família”. Porém, na prática, muitas mulheres experimentam um nível profundo de solidão depois que os filhos nascem. A rotina muda. O corpo muda. A relação muda. As prioridades mudam. E, frequentemente, a rede de apoio desaparece justamente quando ela é mais necessária.
Muitas mães relatam:
- sensação de isolamento;
- perda de identidade;
- sobrecarga emocional;
- esgotamento mental;
- abandono afetivo dentro do próprio relacionamento.
Mas ainda existe culpa em admitir isso porque a sociedade não aceita mães reais e honestas, apenas cansadas, acabadas, irritadas… que entram no estereótipo designado para elas.
4 – Ter filhos não salva relacionamentos
Poucas ideias são tão perigosas quanto acreditar que um filho resolverá crises afetivas. Muitas pessoas ainda entram na parentalidade tentando recuperar conexão, intimidade ou estabilidade emocional no relacionamento. Mas filhos, assim como o swing, não curam relações fragilizadas.
Na realidade, a chegada de uma criança costuma intensificar tudo aquilo que já existia:
- conflitos mal resolvidos;
- ausência de parceria;
- desigualdade emocional;
- distanciamento sexual;
- ressentimentos antigos.
Ter filhos pode fortalecer vínculos saudáveis, mas dificilmente conserta relações que já estavam por um fio.
5 – Existe culpa materna em praticamente tudo
A maternidade contemporânea parece funcionar sob um sistema permanente de culpa.
Se trabalha demais, culpa.
Se trabalha pouco, culpa.
Se quer sair sem os filhos, culpa.
Se sente cansaço, culpa.
Se pensa em si mesma, culpa.
A mãe idealizada pela sociedade é uma figura impossível: disponível o tempo inteiro, emocionalmente equilibrada o tempo inteiro e plenamente realizada o tempo inteiro. E se duvidar, uma das maiores violências emocionais da maternidade moderna é justamente exigir perfeição de pessoas que já estão sobrecarregadas.
Vamos lembrar que para Winnicott, a mãe não tem que ser perfeita, mas suficientemente boa. A mãe perfeita, além de não existir, não permite falha. E isso é tão grave que pode gerar expectativas frustradas e ser prejudicial ao desenvolvimento do filho que ela tanto deseja cuidar perfeitamente.
6 – Amar um filho não impede uma mulher de se arrepender
Esse talvez seja um dos tabus mais difíceis de aceitar. Porque existe uma pressão enorme para que o amor materno apague qualquer sofrimento relacionado à maternidade. Mas uma mulher pode amar profundamente um filho e, ainda assim:
- sentir exaustão;
- viver luto pela vida que perdeu;
- sentir medo;
- enfrentar depressão;
- questionar sua identidade;
- sofrer com a sobrecarga emocional.
Humanizar mães significa permitir que sentimentos complexos e ambivalentes coexistam sem transformar isso em falta de amor. Mãe “normal” ama o filho, e também sente vontade de viver a própria vida.
7 – A violência materna normalizada como “humor”
Poucas coisas são tão naturalizadas culturalmente quanto a figura da “mãe brava”. Vídeos engraçados de mães gritando, memes sobre chineladas, piadas sobre ameaças, explosões e agressividade dentro de casa. Tudo isso costuma ser tratado como parte inevitável da maternidade, como se perder o controle fosse quase um rito obrigatório para toda mãe.
Mas ta na hora de perguntar por que a violência materna virou entretenimento?
Existe uma diferença enorme entre reconhecer o esgotamento emocional de mães reais e transformar agressividade em traço cultural esperado. Porque, aos poucos, vamos ensinando que uma “mãe de verdade” é aquela que grita, explode, ameaça e vive irritada. E isso não deveria ser normal!
A irritabilidade constante de muitas mães não nasce do nada. Ela é frequentemente resultado de sobrecarga emocional, exaustão mental, ausência de rede de apoio, desigualdade na criação dos filhos, privação de descanso, abandono afetivo, pressão permanente para dar conta de tudo…
Transformar sofrimento em meme é uma das maneiras mais eficazes de impedir discussões profundas sobre saúde mental materna. Se a exaustão vira piada, ela deixa de virar pauta.
Mães que estão no limite emocional devem ser tratadas, acolhidas. Mães não deveriam precisar chegar à explosão para serem reconhecidas como mães reais. E crianças também não deveriam crescer acreditando que violência, medo e gritos são expressões naturais de amor materno.
Antes de existir uma mãe, existe uma mulher!
Neste Dia das Mães a reflexão mais necessária seja essa: quantas vezes mais celebraremos a mãe enquanto silenciamos a mulher?
Maternidade não faz o resto da mulher desaparecer. É por isso que precisamos aprender a amar mães de verdade. Como?
Permitir que continuem existindo como pessoas inteiras.
Beijossssssssssss
Uau… que texto. Excelente 👏👏
Amiga, sua opinião é sempre muito importante! Obrigada!