Educação Sexual

Isso que a gente queria ter encontrado 20 anos atrás

Quando nossos filhos eram pequenos, falar abertamente sobre ser liberal já era raro. Pensar no que isso significava para quem também era pai e mãe, então, era uma conversa praticamente inexistente. A gente entrou no meio liberal com dois filhos pequenos e sem referência nenhuma sobre como lidar com essa parte da vida em família.

Não havia livro, curso, podcast, profissional especializado ou outro casal explicando o que poderia acontecer quando os filhos crescessem, começassem a fazer perguntas ou simplesmente descobrissem alguma coisa sobre a vida dos pais. E, para ser bem sincera, muitas das perguntas que hoje parecem óbvias nem passavam pela nossa cabeça naquela época.

A gente foi descobrindo tudo enquanto vivia. O que contar, o que preservar, como responder quando surgisse alguma pergunta, o que fazer se alguma informação chegasse até eles por outra pessoa e, principalmente, como não transformar nossas escolhas adultas em responsabilidade dos nossos filhos. Não tínhamos como saber qual seria o resultado disso anos depois. Fomos tomando decisões, ajustando outras, errando algumas vezes e construindo nosso próprio jeito de lidar com esse tema.

Hoje nossos filhos têm 24 e 21 anos, e só agora, olhando para trás, conseguimos perceber com mais clareza quais escolhas fizeram sentido e quais princípios acabaram funcionando para a nossa família.

A pergunta que sempre fizeram

Em todos esses anos, talvez nenhuma pergunta tenha aparecido tanto quanto: “Seus filhos sabem que vocês são liberais?”. Já ouvimos isso em entrevista, comentário, festa, palestra, podcast e conversa particular. Durante muito tempo achei curioso como toda a discussão sobre filhos de pais liberais parecia caber dentro dessa pergunta, como se existissem apenas duas opções: contar tudo ou esconder tudo. Só que a realidade nunca foi tão simples assim.

Filho não precisa conhecer todos os detalhes da vida sexual dos pais. Pais também têm direito à própria intimidade. Ao mesmo tempo, quem vive o meio liberal precisa considerar que algumas informações podem chegar aos filhos mesmo sem uma conversa planejada. Uma foto pode aparecer, alguém pode comentar, uma entrevista pode surgir numa busca, um vídeo pode circular, um conhecido pode falar alguma coisa.

Passsamos a pensar assim – o ponto não era mais sobre “contar ou não contar”. Não se tratava de fazer uma revelação, mas de construir uma relação na qual nossos filhos pudessem encontrar alguma informação, fazer uma pergunta e receber uma resposta sem precisar entrar na nossa intimidade nem sentir que havia um grande segredo familiar para proteger.

A vida liberal dos pais não pode virar responsabilidade dos filhos

Esse foi um dos princípios mais importantes que fomos construindo ao longo do tempo. Se algum dia nossos filhos soubessem alguma coisa sobre a nossa vida, não seria justo colocar sobre eles a obrigação de manter aquela informação escondida. Não queríamos que precisassem pensar antes de falar, mentir para alguém ou sentir medo de “deixar escapar” alguma coisa que poderia trazer consequências para nós. Essa responsabilidade precisava continuar sendo nossa.

Hoje isso parece muito claro, mas nem sempre é. Quando contamos algo para um filho, aquela informação deixa de estar completamente sob nosso controle. Ele pode comentar com um amigo, falar com um professor, mencionar numa terapia, conversar com um namorado ou simplesmente não considerar aquilo tão privado quanto nós consideramos. E isso não significa necessariamente quebra de confiança. Significa que entregamos aquela informação a outra pessoa.

Foi daí que surgiu uma frase que acabou se tornando muito importante: intimidade pode ser preservada, mas sigilo não pode ser terceirizado para os filhos. Se determinada informação só pode existir dentro da família desde que uma criança ou adolescente prometa nunca contar para ninguém, talvez ela ainda devesse permanecer no universo dos adultos.

Educação sexual é muito mais do que falar sobre sexo

Quando nossos filhos eram pequenos, educação sexual ainda era entendida por muita gente como aquela conversa constrangedora sobre “de onde vêm os bebês”. Com o tempo, estudando sexualidade e trabalhando profissionalmente com relações humanas, fui percebendo ainda mais claramente que sexualidade começa muito antes do ato sexual. Ela aparece na relação com o corpo, no toque, no consentimento, nos afetos, na forma como lidamos com a nudez, na liberdade para fazer perguntas e na maneira como uma família reage quando alguém diz “não”.

E quero dizer algo que considero fundamental: mesmo quando os pais não falam, os filhos aprendem! (Viu?) Nós mesmos, eu e você, aprendemos muita coisa assim. Pelo silêncio. Pela vergonha dos adultos. Pelas piadas. Pela religião. Pelas broncas. pela pornografia. Nós carregamos crenças, medos e mensagens da nossa própria educação sexual, mesmo quando juramos que faremos tudo diferente…

Por isso uma parte importante da educação sexual não fala primeiro sobre os filhos: é sobre os pais. Sobre o que aprendemos quando éramos crianças, quais assuntos ainda nos deixam desconfortáveis, o que queremos repetir e o que definitivamente não queremos levar para a próxima geração. Antes de pensar em “como falar”, talvez seja necessário entender por que determinadas perguntas ainda provocam tanta vergonha ou medo em nós.

Um workbook nasceu pra te ajudar

Quando começamos a organizar o material para criar um workbook dedicado a pais liberais, sabíamos que não queríamos escrever um manual dizendo o que pais liberais deveriam fazer. Não existe uma resposta universal para dizer aos filhos ou não que os pais são liberais. Famílias são diferentes, filhos são diferentes, contextos são diferentes. O que queríamos era criar um material que ajudasse cada casal a pensar antes de precisar improvisar uma resposta numa situação inesperada.

E foi crescendo. Entrou a nossa própria educação sexual, aquilo que a família já ensina no cotidiano, as diferenças entre os pais sobre o que deve ser conversado, limites, consentimento, privacidade, exposição digital, perguntas que podem surgir e até atividades específicas para diferentes fases do desenvolvimento.

Também colocamos situações que pais liberais realmente podem enfrentar: um filho encontrar algo no Google, ver uma foto, ouvir um comentário, perguntar diretamente se os pais fazem swing ou descobrir alguma coisa por outras pessoas. O workbook não entrega uma frase mágica para cada situação. Ele ajuda o adulto a pensar sobre o que está preparado para sustentar antes de responder.

Ao longo de 123 páginas há exercícios individuais, atividades para quem cria os filhos em conjunto, escalas, perguntas e situações práticas. A proposta não é preencher tudo de uma vez nem chegar a uma resposta “politicamente correta”. É usar o material como consulta e voltar a ele conforme os filhos crescem e novas questões aparecem.

Hoje conseguimos olhar para trás

Quando você está criando filhos, não existe botão para conferir se a decisão que tomou hoje vai funcionar daqui a dez ou quinze anos. Você simplesmente faz o melhor que consegue com os recursos que tem naquele momento. Foi assim com a gente. Só depois que nossos filhos cresceram foi possível olhar para trás e perceber que muitas das coisas que fomos construindo funcionaram.

Não porque nossos filhos pensam exatamente como nós ou porque seguiram nossas escolhas. Aliás, nunca foi esse o objetivo (spoiler: nem deve ser o seu!). Uma das reflexões que faço questão de colocar no workbook é justamente que filho de pais liberais não precisa ser liberal.

Ele pode querer uma relação completamente monogâmica, pode não ter interesse nenhum pelo swing, pode discordar da forma como os pais vivem e ainda assim existir respeito dos dois lados. Liberdade não é criar um filho que pense como você. É permitir que ele construa as próprias escolhas.

Olhando para nossos filhos adultos hoje, o que me deixa tranquila não é imaginar que acertamos tudo. Não acertamos. É perceber que conseguimos construir uma relação em que eles nunca precisaram proteger nossas escolhas, nunca foram obrigados a carregar detalhes que pertenciam ao mundo adulto e sempre souberam que podiam conversar.

Marina Rotty e Marcio Wolf apresentam o workbook Pais liberais, filhos protegidos, sobre parentalidade, sexualidade e limites em famílias liberais.

Pais liberais, filhos protegidos

Um workbook feito especificamente para pais que vivem o meio liberal e querem pensar com mais cuidado sobre sexualidade, limites, consentimento, privacidade, exposição e relacionamentos dentro da família. Ele não foi criado para ensinar seus filhos a serem liberais e também não pretende dizer se você deve ou não contar alguma coisa. A proposta é ajudar a separar aquilo que pertence aos filhos daquilo que continua pertencendo aos adultos.

Se há 20 anos tivéssemos encontrado um material assim, algumas decisões talvez tivessem sido menos solitárias e muitas conversas provavelmente teriam começado antes.

E você pode ter esse workbook por um preço super acessível, apenas 47,00 no mês de Outubro. E MAIS: você que faz parte do clube de membros do Ponto Z Podast, pode baixar o workbook sem custo adicional!

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O workbook Pais liberais, filhos protegidos já está disponível.

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