Semana Liberal: Três Edições que Marcaram o Meio
O ano era 2020. O mundo tinha parado. Casas de swing fechadas, festas suspensas, encontros cancelados e todo mundo tentando entender quanto tempo aquela pandemia ainda duraria. Para um universo construído em grande parte a partir do encontro presencial, tudo tinha entrado em pausa e incerteza.
Foi nesse contexto que nasceu um dos projetos que mais nos orgulham nesses 15 anos de portal: a Semana Liberal.
Me lembro direitinho quando conversei com o pessoal do Sexlog – nosso parceiro nas duas primeiras edições – e apresentei a ideia. Era uma conversa despretenciosa mas a ideia de reunir quem já estava falando sobre isso na internet era poderosa demais pra ficar só no campo da “ideia”.
Foram três edições, criadas com uma ideia que hoje pode parecer simples, mas naquele momento representou algo bastante diferente: reunir as pessoas mais influentes do meio liberal na época, especialistas, profissionais de saúde e estudiosos de relacionamentos para falar publicamente sobre um universo que ainda era, e continua sendo, cercado de preconceito.
Aula grátis compre depois
Quem viveu a internet naquele período provavelmente lembra. De repente, todo mundo tinha alguma coisa pra vender. Semana disso, jornada daquilo, congresso online de alguma coisa… Você se inscrevia gratuitamente, assistia algumas aulas e, normalmente, descobria no final que tudo fazia parte do lançamento de um curso.
Não havia nada necessariamente errado nisso. Era simplesmente o modelo que havia tomado conta da internet durante a pandemia. Acontece que a Semana Liberal nunca foi um infoproduto. Não existia um curso escondido esperando no último dia.
O que queríamos vender era uma ideia: a de que pessoas que vivem o swing, o meio liberal e outras formas consensuais de relacionamento mereciam ser vistas como pessoas comuns.
Com relações, dúvidas, conflitos. Pessoas com família e inseguranças como todo mundo. Mas, principalmente, pessoas com direito de dizer “ei, nós existimos!”
Quando conseguimos colocar tanta gente no mesmo projeto
A primeira Semana Liberal conseguiu reunir diferentes vozes que naquele momento ajudavam a construir a conversa sobre swing, relacionamentos e liberdade sexual no Brasil.
Mais do que pessoas contando experiências, passaram pelo projeto nomes de enorme relevância na discussão sobre relacionamentos e sexualidade, como Regina Navarro Lins, além de profissionais como Dr. Bruno Jacob, criadores de conteúdo, casais conhecidos no circuito liberal e pessoas que viviam diferentes experiências dentro desse universo.
A imprensa da época registrou a dimensão que a iniciativa alcançou. O UOL relatou que a primeira edição reuniu cinco casais e duas mulheres entre os participantes do conteúdo e que o evento gratuito chegou a quase 4 mil pessoas, considerando que grande parte dessas inscrições era feita por casais (2 pessoas). O encerramento colocou os participantes juntos em uma grande live.
Até onde conseguimos localizar nos registros públicos daquele período, não encontramos outra iniciativa anterior com a mesma proposta reunindo, em um único projeto, tantas das vozes mais expressivas desse meio. Foi isso que transformou a Semana Liberal em algo maior para nós.
Não precisava todo mundo pensar igual
É importante termos essa consciência de que o meio liberal não é nem nunca foi uma comunidade homogênea.
Existem swingers, pessoas que vivem relações abertas, solteiros, casais, adeptos de fetiches, pessoas que preferem festas, outras que nunca pisaram numa casa de swing.
Existem também opiniões diferentes. MUITAS! E há uma tendência natural da contemporaneidade, de cada grupo permanecer dentro da própria bolha.
A Semana Liberal mostrou que não era necessário concordar com tudo para ocupar o mesmo espaço. É possível reunir pessoas diferentes porque existe alguma coisa maior em comum: combater a desinformação e o preconceito sobre quem escolhe viver fora de determinados padrões sexuais e relacionais.
Porque o estigma não desapareceu
É importante lembrar disso olhando hoje, de 2026, para aquela iniciativa. O meio liberal aumentou sua visibilidade. A não monogamia passou a ser discutida muito mais abertamente. Hoje existem inúmeros perfis falando sobre relações abertas, swing, poliamor, orientação relacional e sexualidade.
Mas infelizmente, só visibilidade não é suficiente. Sair da margem social não significa automaticamente que todo mundo será “aceito”. E nem queremos isso! Não buscamos aceitação dos outros, buscamos o direito de existir.
Porque ainda existem pessoas que precisam escondem dos amigos que frequentam uma casa de swing. Pessoas que perdem seus empregos por puro preconceito contra o swing. Pais e mães que temem o julgamento dos filhos. Profissionais que não podem associar seus rostos ao meio. Casais que vivem parte importante da própria sexualidade em absoluto segredo.
Ou seja, muita coisa mudou. Mas a razão pela qual criamos a Semana Liberal ainda está viva e continua fazendo sentido pra muita gente.
Dar rosto para quem sempre foi tratado como caricatura
Durante décadas, quando o swing aparecia na mídia, frequentemente vinha acompanhado de uma caricatura. Era o lugar misterioso onde aconteciam coisas proibidas.
O que poucos falam é sobre o que realmente importa no meio: as pessoas. Sobre o que acontece antes de entrar numa festa e, principalmente, sobre o que acontece quando o casal volta para casa. A Semana Liberal ajudou a colocar essas conversas no foco.
O próprio Metrópoles registrou na época que a primeira edição pretendia quebrar tabus relacionados à monogamia e abordar assuntos como ménage, swing e poliamor, enquanto a gente explicava que relações liberais não poderiam ser reduzidas apenas ao sexo.
O que começou durante a pandemia – um dos momentos mais estranhos da nossa geração – acabou se tornando um daqueles capítulos que olhamos para trás e pensamos: “isso realmente foi importante.”
Três edições
Foram três edições (2020, 2021 e 2023). Quase 8 mil inscritos. 18 vídeos educativos. Mais de 450 mil visualizações. Apesar de relevantes, os números estão longe de ser a parte mais importante desse projeto.
Foi um marco para o meio liberal conseguir reunir pessoas que ajudavam a formar a opinião do nosso universo e dizer, coletivamente:
nós existimos, nossas relações existem e podemos falar sobre elas com seriedade.
Em uma época em que quase toda semana gratuita terminava tentando vender alguma coisa, a nossa queria entregar outra coisa: visibilidade. Porque essa é uma das maneiras mais eficientes de combater o preconceito.
Parar de falar sobre as pessoas como se elas fossem personagens exóticos e começar a deixar que elas próprias falem. A Semana Liberal foi um dos momentos em que conseguimos fazer isso em grande escala.
E, entre tantos projetos que passaram por esses 15 anos, continua sendo um daqueles que temos muito orgulho de ter colocado no mundo.
Você ainda pode ver todos os videos da Semana Liberal no YouTube