Perdi as contas de quantas vezes já fui criticada por aparecer “com roupa de menos” em festas, fotos e eventos. Isso acontece há anos e, curiosamente, muitas dessas críticas vêm justamente de pessoas que defendem liberdade sexual, relações menos tradicionais e uma vida com menos regras impostas pelos outros. Parece contraditório, mas talvez nem seja tanto assim.
A gente consegue questionar algumas normas sociais e, ao mesmo tempo, continuar reproduzindo outras sem perceber. No caso das roupas, isso aparece de todos os lados. Tem quem ache que uma mulher se expõe demais quando escolhe uma fantasia sensual, mas também tem quem estranhe quando ela decide aparecer mais coberta em um ambiente onde se espera justamente o contrário.
No meio liberal existe, sim, uma cultura muito forte de transformar praticamente qualquer período temático em uma versão sensual de alguma coisa. Se é Páscoa, milhares de coelhinhas aparecerão nas redes de swing. Se é natal, se prepare para uma enxurrada de mamães Noéis… e por aí vai.
Isso faz parte da estética de muitas festas, casas e eventos e, para muita gente, é justamente parte da diversão. Não vejo nenhum problema nisso. O problema começa quando uma brincadeira, uma estética ou uma possibilidade passa a funcionar como regra pra todo mundo que é do meio.
Ser sexy não é o problema
Existe uma tendência curiosa de tratar a sensualidade feminina como se ela precisasse sempre de uma justificativa. Se a mulher usa uma roupa curta, alguém pergunta por que ela precisa se mostrar tanto. Se posta uma foto sexy, alguém questiona se está buscando atenção. Se usa uma fantasia mais ousada, sempre aparece alguém disposto a explicar o que aquela roupa supostamente diz sobre ela. Muitas vezes ninguém está interessado em saber o que aquela mulher realmente quer, ou pensa. O julgamento vem antes da pergunta.
Uma mulher pode simplesmente gostar de se sentir sexy. Pode gostar de decotes, transparências, roupas curtas. Isso não significa automaticamente que ela é insegura, carente ou qualquer outra interpretação pronta que alguém queira colocar sobre ela. Às vezes ela só gosta. E deveria ser suficiente.
PARÊNTESES: Mano, já percebeu como hoje em dia todo mundo é expert em comportamento? A pessoa lê um comentário de uma psicóloga, assiste um reels de 1 minuto de um sexólogo e pronto: magicamente já está apto para diagnosticar a torto e a direito como se tivesse feito os 5 anos de faculdade de psi + 2 anos de especialização, pesquisas e estudos complementares… afffff!
Por outro lado, também não acho interessante transformar a sensualidade em uma espécie de obrigação moderna. Existem ambientes em que parece que, para pertencer, a mulher precisa estar sempre produzida, maquiada, com salto, decote e alguma roupa que destaque o corpo. E isso também pode se tornar uma forma de pressão. A diferença é que, como essa pressão vem acompanhada de palavras como liberdade, ousadia e empoderamento, às vezes fica mais difícil perceber que continua sendo uma expectativa externa (né?).
Nem ser sexy nem ser comportada está errado. O ponto é: quem está escolhendo?
Tudo é permitido. Nada é obrigatório.
Essa frase tem sido o lema do swing (e seus ambientes) desde que entramos no meio e que, para mim, deveria ser levada mais a sério em várias situações: tudo é permitido, nada é obrigatório. O princípio parece simples, mas ele diz muita coisa. Uma prática pode estar disponível sem precisar ser realizada. Uma experiência pode fazer parte daquele ambiente sem precisar fazer parte da sua experiência. Você pode querer alguma coisa hoje e não querer amanhã. Pode experimentar e descobrir que não gostou. Pode gostar durante anos e depois perder a vontade.
Em outras palavras: você pode fazer o que quiser, desde que não obrigue ninguém a fazer também.
Com roupa deveria funcionar exatamente do mesmo jeito.
Se uma mulher quer usar uma fantasia curta, justa, transparente, ousada ou provocante, a escolha é dela, não do marido que curte desfilar por aí com uma gostosa.
Se quer aparecer coberta dos pés à cabeça, a escolha é dela, não de uma sociedade que colocou na cabeça dela desde criança que isso é ser “boa moça”.
Se quer chegar numa festa de salto e lingerie, que seja porque ela gosta, não porque todas as outras mulheres vão assim também.
Se quer ser sexy hoje, mas amanhã não, continua sendo escolha dela.
Não adianta sair de uma regra conservadora e entrar em uma regra liberal – e ainda querer chamar isso de liberdade! Não adianta abandonar o “mulher direita não usa isso” para substituir por “mulher livre usa aquilo”. Nos dois casos alguém continua determinando como a mulher deveria se apresentar.
Parece simples, mas não é
Talvez a parte mais difícil dessa conversa seja perceber que nem sempre sabemos exatamente por que fazemos determinadas escolhas. Todos nós somos atravessados pelo ambiente, pelas pessoas que convivem conosco, pelas redes sociais, pelos grupos aos quais pertencemos e pelas expectativas que existem nesses espaços. Isso não significa que toda escolha seja falsa ou manipulada. Significa apenas que vale a pena, de vez em quando, olhar para ela com mais atenção.
No meio liberal isso pode acontecer de várias formas. Uma mulher pode começar a frequentar festas e perceber rapidamente qual tipo de corpo recebe mais atenção, qual roupa parece gerar mais elogios, quais fotos recebem mais curtidas e qual aparência costuma ser valorizada naquele espaço. Aos poucos, sem que ninguém diga diretamente o que ela deve vestir, essas referências podem se transformar em uma regra silenciosa.
Mas o contrário também existe. Depois de receber críticas por aparecer sensual demais, uma mulher pode começar a se cobrir mais não porque deseja isso, mas porque cansou de ser julgada. Nesse caso, a crítica também passou a decidir por ela.
É por isso que é importante revisitar de vez em quando esse cantinho aí dentro de si: eu me visto assim porque realmente quero ou porque aprendi que era assim que eu deveria aparecer?
Sua fantasia não precisa agradar ninguém
Se você escolheu aquela roupa porque se sente bonita, gostosa, poderosa, divertida ou simplesmente porque teve vontade, aproveite. Se percebeu que está desconfortável porque sente que precisa mostrar mais do que gostaria para combinar com o ambiente, talvez seja hora de escolher outra coisa. E se está escondendo o corpo apenas porque alguém pode te julgar, talvez também valha pensar sobre isso.
No fim, não é sobre o tamanho da saia, o tamanho do decote ou a quantidade de pele aparecendo. É sobre conseguir reconhecer onde termina a expectativa dos outros e começa a sua vontade.
E se você nem sabe responder por que se veste como se veste, é provável que esse seja um ótimo momento para repensar seus looks. E descobrir o que é realmente seu.
Beijosssssss

