No dia 21 de outubro é comemorado no Brasil o Dia do Podcast e, este ano, uma conversa que tivemos alguns dias antes da data acabou nos fazendo olhar para esse formato de um jeito diferente.
Nosso amigo do Guia Meio Liberal, estava mapeando pessoas que produzem conteúdo educativo sobre o meio e, enquanto conversávamos sobre quem incluir nessa lista, surgiu aquela sensação inicial de que deveria haver muita gente. Afinal, basta abrir o Instagram para encontrar dezenas de casais, singles, festas, casas, aplicativos e perfis ligados ao universo liberal. O meio nunca esteve tão presente nas redes.
Só que, quando mudamos um pouco a pergunta, o cenário também muda: quantas dessas pessoas estão realmente produzindo conteúdo para explicar, discutir e refletir sobre o meio liberal? Quantas mantêm um canal, podcast ou programa falando regularmente sobre comportamento, relacionamentos, ciúme, consentimento, acordos, exposição, preconceito, segurança, sexualidade e todas as outras questões que existem quando saímos da imagem mais óbvia do swing? A lista, que parecia enorme, ficou surpreendentemente pequena.
Essa diferença é importante porque ser liberal e produzir conteúdo nas redes não é falar qualquer coisa sobre o meio liberal. Há muitos casais mostrando suas experiências, gente fazendo humor, pessoas compartilhando fotos de festas, perfis sensuais, produtores de conteúdo adulto e singles contando aventuras. Tudo isso faz parte desse universo e não estamos estabelecendo aqui uma hierarquia entre um tipo de conteúdo e outro.
A questão é apenas reconhecer que existe um grupo ainda bastante reduzido de pessoas que decidiu assumir também uma função de informação, debate e até um certo ativismo desse estilo de vida. Gente que coloca o rosto diante de uma câmera ou se senta diante de um microfone para falar sobre aquilo que funciona, aquilo que dá errado, as dúvidas de quem está começando, os conflitos de quem já está há anos no meio e, principalmente, sobre questões que dificilmente seriam tratadas com profundidade em um vídeo de quinze segundos.
Foi daí que nasceu a ideia de usar este Dia do Podcast para fazer mais do que comemorar o Ponto Z. Resolvemos olhar para os podcasts brasileiros criados especificamente para falar sobre o meio liberal, tanto aqueles que continuam produzindo atualmente quanto os que tiveram seu ciclo, deixaram episódios registrados e ajudaram a construir essa história.
Não incluímos aqui podcasts sobre sexualidade em geral que eventualmente fizeram um episódio sobre swing, nem projetos internacionais, porque isso mudaria completamente o tamanho e o objetivo do levantamento. O recorte é bem específico: gente do Brasil que, em algum momento, resolveu dar as caras e criar um podcast para conversar sobre esse universo do qual fazemos parte.
Quando o podcast ainda era principalmente para ouvir
Nós mesmos começamos antes do Ponto Z. Em 2021 criamos o PodMM, Marina e Marcio no Swing. Era um podcast essencialmente em áudio. Não havia toda a estrutura que temos atualmente, cenário, cortes, thumbnails e toda essa lógica audiovisual que hoje praticamente acompanha a palavra podcast. Era sentar, conversar, gravar e disponibilizar para as pessoas ouvirem. Pode parecer uma diferença pequena, mas não é. O podcast nasceu como mídia sonora e continua existindo dessa forma, porém a maneira como as pessoas consomem esse tipo de conteúdo mudou muito nos últimos anos.
Hoje, principalmente em um nicho como o nosso, o podcast em vídeo acaba sendo muito mais valorizado e tendo muito mais possibilidade de circulação. Você publica o episódio completo no YouTube, transforma uma conversa de uma hora em cinco, dez ou vinte cortes, publica trechos no Instagram, Shorts, TikTok, cria uma capa para cada assunto e alcança pessoas que talvez jamais procurassem aquele programa em uma plataforma de áudio.
A expressão do convidado, a reação a uma pergunta, a risada, o silêncio e até um desconforto passam a fazer parte da conversa. O áudio continua sendo importante e muita gente ainda escuta podcast no carro, treinando ou trabalhando, mas o vídeo transformou o podcast também em produto de rede social.
Quando saímos do PodMM e criamos o Ponto Z, essa mudança já estava acontecendo. O Ponto Z acabou se tornando não apenas um podcast que pode ser ouvido, mas um programa para ser assistido, recortado, compartilhado e discutido em várias plataformas. Hoje seguimos publicando episódios sobre assuntos diretamente relacionados ao meio liberal, relacionamentos e sexualidade.
Em outubro de 2026 continuamos com episódios semanais tratando de temas como ressaca moral, exposição, ciúme, comportamento e várias das questões que surgem diariamente para quem vive ou tem curiosidade sobre essa forma de se relacionar.
Quem continua com o microfone ligado
Entre os projetos que estão produzindo atualmente, o PodTrocar merece um lugar especial nesta homenagem, e neste ano existe ainda uma coincidência muito boa: amanhã, dia 20 de outubro, um dia antes do Dia do Podcast, estaremos com eles. Camila e Edgar Voluptas construíram um dos maiores acervos de conversas sobre swing e meio liberal no Brasil, recebendo casais, singles, profissionais e personagens conhecidos desse universo.
Depois de um período sem novos episódios, o PodTrocar começou uma nova temporada há poucas semanas e voltou a produzir. Para nós, participar novamente dessa conversa bem na véspera da data deixa este texto ainda mais simbólico. Não estamos falando apenas sobre podcasts do meio liberal olhando de fora. Estaremos literalmente sentados diante dos microfones de outro projeto que continua ajudando a registrar essa história.
Nós podemos discordar de outros criadores, ter formas diferentes de enxergar o swing, defender conceitos diferentes e até viver o meio de maneiras completamente distintas. Isso é saudável. Um ecossistema de informação não deveria existir apenas quando todo mundo pensa igual. Pelo contrário!
Quanto mais pessoas sérias estiverem dispostas a colocar suas experiências e ideias em circulação, melhor para quem busca informação. Durante muito tempo praticamente tudo que a sociedade sabia sobre swing vinha de piadas, pornografia, reportagens sensacionalistas ou representações feitas por quem nunca havia vivido uma experiência liberal. Quando as próprias pessoas do meio começaram a falar, a coisa mudou.
Também encontramos neste levantamento o PodLiberal, apresentado por Márcia Emy, outro projeto em vídeo voltado diretamente para histórias e personagens do meio. Em 2026 o programa segue recebendo convidados para conversas sobre experiências liberais, entrada no swing, relacionamentos e as histórias de quem vive esse universo. É interessante perceber como esses programas baseados em entrevistas vão formando, mesmo sem intenção, uma espécie de memória oral da comunidade. Cada casal ou single que se senta ali não está apenas respondendo perguntas. Está registrando como as pessoas vivem, pensam e enxergam o meio liberal naquele momento.
E quem tá chegando agora na parada dos podcasts é a Bibi, com o projeto novo Quem Disse Que Pode? Criado em 2026, o programa se apresenta como um podcast sobre sexualidade, relacionamentos, comportamento e meio liberal, com quadros que trabalham histórias, experiências e reflexões sobre desejo, moralidade, ciúme e diferentes formas de se relacionar. A produção é recente e isso é especialmente interessante para nós porque mostra que novos microfones continuam surgindo.
E teve muita gente antes
Se o objetivo fosse apenas fazer uma lista de podcasts ativos em outubro de 2026, poderíamos parar por aqui. Mas seria injusto falar em Dia do Podcast e fingir que essa produção começou agora. Vários projetos abriram espaço para essas conversas em outros momentos e, mesmo sem episódios recentes, continuam disponíveis para quem quiser conhecer um pouco dessa história.
O Tá Liberado, do Casal Libido, é um desses projetos. A própria apresentação do podcast dizia de maneira simples que eles eram um casal liberal que gostava de conversar sobre o meio e convidava quem tivesse curiosidade para acompanhar. O programa começou em 2021, produziu episódios com relatos, convidados e discussões sobre diferentes aspectos da vida liberal e teve sua publicação mais recente localizada em abril de 2024. Foram doze episódios registrados nas plataformas, incluindo conversas sobre experiências, exposição, fantasias e diferentes cenas liberais pelo Brasil.
Bianca e Wander, do Casal Kero+ Liberamor, também mantiveram uma produção diretamente ligada ao tema. O próprio programa se definia como um espaço para falar sobre não monogamia liberal, swing, troca de casais, poliamor, relacionamento aberto e a comunidade criada por eles. O catálogo disponível vai de 2020 a janeiro de 2025 e traz episódios sobre abordagem de singles, experiências do casal, aplicativos, eventos e outras questões relacionadas à vida liberal.
O Casal Liberal, de Dan e Ludy, também deixou um acervo importante. O canal se apresenta explicitamente como um espaço criado para compartilhar experiências sobre meio liberal e swing e teve episódios sobre festas, ménage, abordagem, saúde, não monogamia, venda de conteúdo e outras questões recorrentes da comunidade. Nós mesmos participamos de um dos episódios da segunda temporada, o que faz esse projeto também fazer parte da nossa própria história de encontros com outros produtores liberais.
Outro exemplo foi o Casal Que Pod, de Bruh e Feh, criado em 2023. A proposta era falar de relacionamento, vida liberal e experiências do casal de maneira descontraída, e entre os episódios encontramos temas como dicas para iniciantes no meio liberal, aplicativos para swing, amizade colorida e vivências do relacionamento. A primeira temporada teve 14 publicações registradas e terminou em julho daquele ano.
Temos ainda o Hora Venusto, que também produziu conversas diretamente relacionadas ao meio liberal. Você encontra 18 episódios registrados no canal dele, com o último datando fevereiro de 2026.
Parece muita gente até começar a contar
Isso foi uma das coisas interessantes nesse levantamento. Quando olhamos para o tamanho do meio liberal brasileiro, a quantidade de podcasts criados especificamente para falar sobre ele é pequena. Estamos falando de um país com casas de swing em várias regiões, milhares de casais e singles frequentando festas, aplicativos com grandes comunidades, eventos praticamente toda semana e perfis liberais que somam centenas de milhares de seguidores.
Quem olha apenas para as redes pode ter a impressão de que existe uma multidão produzindo informação sobre o tema. Quando começamos a separar quem mostra a própria vida de quem mantém um projeto destinado a conversar regularmente sobre esse universo, os nomes cabem em poucos parágrafos.
Isso não significa que somente quem tem um podcast produz informação relevante. Longe disso! Há textos, perfis, livros, vídeos, palestras, comunidades e muita gente fazendo um trabalho sério em outros formatos. Mas o podcast tem uma característica que ficou cada vez mais rara nas redes: ele permite tempo.
Dá para fazer uma pergunta e esperar a resposta. Dá para explicar um contexto. Dá para contar como uma relação começou, onde deu errado, o que precisou ser revisto e por que determinadas escolhas foram feitas. Dá para discordar sem precisar transformar tudo numa frase de efeito. Dá para perceber que uma questão aparentemente simples sobre ciúme, por exemplo, pode envolver medo, autoestima, acordos, história de vida, expectativas e várias coisas que simplesmente não cabem num Reels.
Deve ser por isso que produzir um podcast sobre o meio liberal seja também mais difícil do que parece. Não basta colocar duas pessoas diante de um microfone. É preciso pauta, frequência, exposição e disposição para continuar falando mesmo quando o algoritmo prefere assuntos mais rápidos.
Nossa homenagem
Existe uma frase que resume boa parte da razão pela qual fazemos o que fazemos: se nós não contarmos quem somos, outras pessoas contarão por nós. E durante muito tempo foi exatamente isso que aconteceu. A sociedade aprendeu sobre swing através da pornografia, de piadas sobre troca de casal, de personagens exagerados ou de matérias que entravam numa casa de swing como quem entrava num lugar exótico para mostrar criaturas desconhecidas. Ficavam de fora as relações, os acordos, os medos, os casamentos, os filhos, as inseguranças, as amizades e toda a vida comum que existe antes e depois de uma festa.
Quando pessoas que realmente vivem esse universo começam a produzir conteúdo, surge a possibilidade de construir outra narrativa. Não necessariamente uma narrativa bonita, porque também existem problemas dentro do meio liberal e eles precisam ser discutidos. Há assédio, preconceito, machismo, desrespeito, conflitos, pessoas mal intencionadas e relações que se machucam. Produzir conteúdo educativo não deveria significar vender o meio liberal como um lugar perfeito. Significa justamente poder falar sobre ele com mais complexidade, mostrando o que existe de bom, de ruim, de contraditório e de humano.
É por isso que, neste 21 de outubro, nossa homenagem não é apenas para quem está publicando agora. É para o PodTrocar, o Quem Disse Que Pode?, o PodLiberal e o Ponto Z, que continuam colocando essas conversas em circulação hoje. Mas é também para o Tá Liberado, Casal Kero+ Liberamor, Casal Liberal, Casal Que Pod, Hora Venusto, Hedonikos, PodMM e outros projetos que em algum momento resolveram transformar experiência liberal em conversa pública.
Provavelmente esquecemos alguém. Esperamos, inclusive, que tenhamos esquecido. Não existe um cadastro brasileiro de podcasts do meio liberal, alguns projetos desapareceram das plataformas, outros podem ter utilizado nomes que dificultam as buscas e certamente existem programas pequenos que nunca chegaram ao nosso radar. Se você teve ou mantém um podcast criado especificamente para falar sobre o meio liberal e não apareceu neste levantamento, escreva nos comentários. Queremos acrescentar seu nome e seu projeto nessa lista!
Porque depois de fazer essa busca, a conclusão que ficou foi bastante simples: somos menos do que imaginávamos. E isso nos faz ter a certeza de que cada microfone importa!
O Dia do Podcast 2026 terá ainda um sabor especial. Ponto Z e PodTrocar juntos, na mesma mesa, provando de uma vez por todas que ninguém representa sozinho uma comunidade tão diversa quanto o meio liberal. Quanto mais gente falando, pesquisando, perguntando, discordando e registrando essas experiências, melhor.
Daqui a alguns anos, faremos novamente esse levantamento. Tomara que seja impossível colocar todos os podcasts do meio liberal brasileiro em um único texto!
Neste Dia do Podcast, parabéns a todos que tiveram coragem de ligar o microfone.
Beijosssssssssss

