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Magia? É Transformação

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Sabe o que mais me seduz no Halloween? Mais do que as fantasias, as festas, as maquiagens ou toda aquela estética sombria que toma conta do mês de outubro? É a magia.

Não estou falando exatamente de feitiços, caldeirões ou coisas sobrenaturais. Estou falando dessa ideia de que algumas pessoas carregam uma força que transforma ambientes, relações e até a própria vida. E acho que é por isso que eu a figura da bruxa em chama a atenção.

Quando tiro dela o chapéu pontudo, a vassoura e toda a caricatura criada ao longo dos séculos, sobra uma mulher que conhece coisas. Conhece a natureza, conhece os ciclos, conhece o corpo, percebe o que os outros não percebem, transforma aquilo que encontra e, principalmente, não sai pedindo permissão para ser poderosa.

Isso, para mim, sempre foi profundamente feminino.

Me encanta porque reconheço nisso alguma coisa que também vejo nas mulheres. Não uma espécie de poder místico que toda mulher carregaria simplesmente por ter nascido mulher. Eu falo da capacidade de transformar aquilo que recebemos da vida. Transformar dor em experiência, desejo em escolha, medo em movimento, corpo em identidade, silêncio em voz. Existe algo de profundamente mágico quando uma mulher percebe que não precisa permanecer exatamente no lugar que prepararam para ela.

Toda magia começa quando alguma coisa se transforma

Quando pensamos em magia, quase sempre pensamos em transformação – alguma coisa era de um jeito e passa a ser de outro. A vida das mulheres é cheia dessas pequenas alquimias.

Nós aprendemos muito cedo aquilo que esperam de nós. Como devemos sentar, como devemos falar, como devemos nos vestir, o quanto podemos desejar, como devemos envelhecer, que tipo de relacionamento deveríamos construir, quando devemos ser sensuais e quando essa sensualidade passa a ser considerada exagerada. Existe um manual invisível de comportamento feminino que vai sendo entregue em pequenas poções ao longo da vida.

Poções que a gente vai bebendo meio que na obrigação, que nem sempre são saborosas ou bem preparadas, só são colocadas pra dentro da gente. E muitas de nós, mulheres, se acostumam tanto com essas poções que já se lembram mais de como seriam sem elas.

Algumas mulheres se dão conta de que foram obrigadas a engolir algo que não era delas. Em algum momento da vida, descobrem que determinada escolha não foi exatamente delas, mas algo que repetiram durante anos porque parecia não existir alternativa.

Pra mim, é aí que começa a liberdade.

Quando você consegue olhar para alguma coisa que sempre pareceu natural e perguntar: eu realmente quero isso?

Talvez a resposta seja sim. Talvez você queira exatamente a vida que já construiu. Mas existe uma diferença importante entre estar ali porque escolheu e estar ali apenas porque aprendeu a obedecer.

A mulher que conhece é um pouco perigosa

Uma característica da figura da bruxa que sempre me chamou atenção é essa: ela sabe das coisas. Ela conhece ervas, ciclos, remédios, nascimentos, mortes, corpos. Dependendo da cultura e da época, esse conhecimento muda de forma, mas existe sempre alguma relação entre a bruxa e aquilo que não está disponível para qualquer pessoa.

E conhecimento também é poder. Talvez seja por isso que exista tanto incômodo com mulheres que conhecem demais o próprio corpo, o próprio desejo e a própria sexualidade. Uma mulher desconectada do próprio desejo é muito mais fácil de conduzir do que uma mulher que sabe o que gosta, o que não gosta, o que aceita e aquilo que não aceita de jeito nenhum.

É aqui que, para mim, a magia feminina encontra diretamente a liberdade sexual. Porque conhecer o próprio corpo também é uma espécie de magia.

Durante muito tempo, tantas mulheres souberam muito mais sobre como aquele corpo deveria parecer do que sobre aquilo que ele sentia. Sabiam quando deveriam escondê-lo, quando poderiam mostrá-lo, para quem deveriam estar disponíveis, mas nem sempre sabiam responder perguntas muito simples sobre si mesmas.

O que me dá prazer? O que desperta meu desejo? O que eu faço porque quero e o que faço porque aprendi que deveria fazer?

Quando uma mulher começa a encontrar essas respostas, alguma coisa muda.

Liberdade sexual é mais do que tirar a roupa

Ser uma mulher sexualmente livre não significa transar com todo mundo, experimentar qualquer coisa ou viver sem limites. Liberdade sexual é justamente poder decidir.

Uma mulher pode viver uma relação monogâmica e ser sexualmente livre. Pode viver uma relação aberta, liberal ou não monogâmica. Pode ter muitos parceiros ou apenas um. Pode gostar muito de sexo, pouco ou atravessar períodos em que sexo simplesmente não seja prioridade. O que define se a mulher é livre sexualmente falando, é a possibilidade de reconhecer a escolha sexual (seja qual for) como sua.

É poder dizer sim sem se sentir diminuída e dizer não sem culpa. É reconhecer uma fantasia sem acreditar que precisa necessariamente realizá-la. É descobrir um desejo sem transformá-lo imediatamente em vergonha. É experimentar e concluir que não gostou. É não experimentar porque simplesmente não quer.

Nossa cultura convive muito bem com imagens de mulheres sensuais porque o corpo feminino sempre esteve disponível como objeto de desejo. O que ainda causa desconforto é quando aquela mulher deixa claro que o corpo é dela, o desejo é dela e a decisão também.

Ela deixa de ser apenas objeto do desejo de alguém e passa a ser sujeito do próprio desejo. Quer transformação mais linda que essa? Isso, caros leitores, é uma bela forma de magia.

A verdadeira magia feminina

Não acho que exista uma essência feminina universal. Mulheres são diferentes demais entre si pra gente afirmar isso com certeza. Mas existe algo que observo com frequência na trajetória de muitas mulheres: a enorme capacidade de reconstrução.

Nós nos transformamos muitas vezes durante a vida. Mudamos depois de um casamento, de um divórcio, de uma perda, de uma paixão, de uma descoberta sobre nós mesmas. Mudamos quando o corpo muda, quando envelhecemos, quando percebemos que determinadas certezas já não fazem sentido.

Às vezes uma mulher passa anos acreditando que determinada versão dela era definitiva e, de repente, descobre outra. E isso me fascina porque transformação tem tudo a ver com magia.

Não aquela magia que faz alguma coisa aparecer do nada, mas a magia muito mais difícil de pegar aquilo que existe e criar outra coisa a partir dali.

Por muitos anos fui ensinada que o dia das bruxas era sombrio, péssimo e eu deveria fugir dele como o diabo foge da cruz! Hoje, entendo que essa nunca foi minha visão – mesmo criança eu já era fascinada por magia. E hoje, eu não busco doces nem travessuras, eu quero celebrar a liberdade.

A mulher não precisa seguir o manual de objeto de desejo. No halloween ela pode se vestir com roupas rasgadas, fazer uma make toda errada e ainda assim exalar sensualidade e poder. Pode brincar justamente com os símbolos que durante tanto tempo foram usados para representar mulheres perigosas. E eu acho isso deliciosamente impagável!

Porque a gente sabe que o perigo da bruxo sempre esteve naquilo que ela representava: uma mulher que sabe. Uma mulher que percebe. Uma mulher que transforma. Uma mulher que conhece o próprio corpo. Uma mulher que pode estar completamente nua e, ao mesmo tempo, disponível para servir de corrimão.

Halloween é sobre mulheres

Mulheres que tiveram coragem de fazer perguntas que ninguém queria responder. Que descobriram a própria sexualidade depois de anos acreditando que havia alguma coisa errada com elas. Mulheres que começaram de novo quando todo mundo achava que já era tarde.

Eu penso principalmente na mulher que percebe que não precisa ser apenas uma coisa nessa vida. Ela pode ser mãe e sexual. Pode ser esposa e desejar. Pode envelhecer e continuar sensual. Pode ser forte e pedir ajuda. Pode querer estabilidade e também aventura. Pode mudar, contradizer versões antigas de si mesma e descobrir coisas que nem imaginava desejar.

Pode ser muitas. E pra quem olha de fora, ser “muitas” só é possível com magia. Não uma magia sobrenatural, que exige fé para acreditar que é real.

É a magia de perceber que aquele medo já não manda mais nela. A magia de olhar para uma regra antiga e decidir que aquela regra não serve mais. A magia de transformar dor em experiência. A magia de começar outra vez. A magia de envelhecer sem desaparecer. A magia de escolher ser você!

Happy Halloween!

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