No dia 1º de agosto de 2026 aconteceu a primeira edição da Imersão Entre Casais Liberais, uma experiência que nasceu com uma proposta muito simples: criar um espaço para que os casais pudessem parar por algumas horas e olhar para a própria relação. Parece pouco, mas na rotina isso quase nunca acontece. Trabalho, filhos, contas, compromissos, família, redes sociais e tantas outras coisas vão ocupando espaço, enquanto algumas conversas importantes acabam sendo adiadas.
A ideia da Imersão não era ensinar como ter um relacionamento perfeito e muito menos dizer qual modelo de relação cada casal deveria escolher. Era criar condições para que cada um pudesse olhar para aquilo que já construiu, perceber o que funciona, reconhecer o que precisa de atenção e conversar sobre assuntos que muitas vezes ficam escondidos debaixo da rotina.
Todo relacionamento tem uma estrutura
Uma das ideias que conduziu o encontro foi a comparação do relacionamento com uma casa. Uma casa pode ser bonita, bem decorada e transmitir uma ótima impressão para quem olha de fora, mas é a estrutura que determina o peso que ela consegue suportar. Com os relacionamentos acontece algo parecido. Conforme a vida cresce, aumenta também o peso colocado sobre aquela relação. Chegam filhos, trabalho, dinheiro, rotina, mudanças, desejos, família, sexualidade e, em alguns casos, a possibilidade de incluir outras pessoas nessa dinâmica.
Por isso, antes de discutir liberdade, swing, não monogamia ou qualquer outro formato de relacionamento, talvez exista uma pergunta anterior: como está a estrutura desse casal? Foi a partir daí que conversamos sobre identidade, maturidade emocional, comunicação, ciúmes, acordos, limites, autonomia, responsabilidade emocional, desejos e sexualidade.
E o que os participantes acharam?
Depois da Imersão, enviamos uma pesquisa aos participantes para entender como aquela experiência havia sido percebida. Recebemos 12 respostas e os resultados foram muito positivos. A nota média da experiência foi 9,67 em uma escala de 0 a 10, sendo que nove participantes deram nota máxima. Quando perguntamos o quanto recomendariam a Imersão para outro casal, a média foi ainda maior: 9,75.
A sensação de segurança para falar sobre assuntos pessoais recebeu média de 4,75 em uma escala de 1 a 5, e todos os participantes destacaram a naturalidade com que assuntos delicados foram tratados durante o encontro. Mas, mais do que as notas, foram as respostas abertas que nos ajudaram a entender o que realmente aconteceu naquele dia.
O que mais mexeu com os casais não foi o sexo
Quando perguntamos qual momento mais havia impactado os participantes, o tema que apareceu com maior frequência foi a identidade do casal. E talvez isso diga muito sobre o que acontece nos relacionamentos ao longo dos anos. Duas pessoas começam uma história, criam hábitos, fazem acordos, assumem responsabilidades e constroem uma vida juntas, mas nem sempre param para perguntar quem são hoje como casal. O que ainda faz sentido? Quais escolhas continuam sendo conscientes? Quais comportamentos existem apenas porque sempre foi assim? Quais desejos mudaram? Qual é a identidade dessa relação atualmente? Talvez exista uma diferença enorme entre simplesmente estar em um relacionamento e participar conscientemente da construção dele.
Outro ponto apareceu com bastante força quando perguntamos qual aprendizado os participantes levariam para casa: acordos e limites. Todo relacionamento possui acordos, mesmo quando eles nunca foram colocados em palavras. Alguns surgiram no começo da relação e nunca mais foram discutidos. O problema é que as pessoas mudam. A vida muda. Os desejos mudam. As necessidades mudam. Por isso, um dos aprendizados importantes da Imersão foi perceber que um acordo não precisa ser eterno para ser verdadeiro. Ele pode fazer sentido durante determinado momento da história do casal e depois precisar ser revisto. Isso não significa falta de compromisso. Pelo contrário. Significa deixar de viver relações baseadas apenas em regras herdadas e começar a construir compromissos mais conscientes.
A Imersão terminou, mas o trabalho do casal não
Talvez o dado mais interessante da pesquisa tenha aparecido quando perguntamos se ainda existiam pontos da relação que precisavam ser trabalhados. Setenta e cinco por cento dos participantes disseram que sim. Além disso, metade das respostas trouxe praticamente a mesma sensação:
“Entendemos muita coisa, mas ainda precisamos organizar como colocar isso em prática”.
Para nós, isso é importante porque uma Imersão de um dia não tem a pretensão de resolver todos os conflitos de uma relação construída ao longo de anos. O que ela pode fazer é algo diferente: ajudar o casal a enxergar. Às vezes a transformação começa quando conseguimos perceber um comportamento que se repetia sem que ninguém notasse, quando encontramos palavras para falar de algo que sempre gerou desconforto ou quando finalmente conseguimos fazer uma pergunta que estava sendo evitada.
Entre os pontos que os participantes disseram ainda precisar trabalhar, a comunicação foi o tema que mais apareceu. Isso também confirma algo que observamos há muitos anos convivendo e trabalhando com casais. Muitas vezes o problema não está apenas em duas pessoas quererem coisas diferentes. A dificuldade está em conseguir conversar sobre essas diferenças sem transformar a conversa em uma disputa. Falar sem atacar. Ouvir sem preparar imediatamente uma defesa. Conseguir dizer “isso me incomoda”, “isso me assusta”, “eu quero isso” ou “eu não quero isso” sem que toda conversa vire uma ameaça à relação. Comunicação não é simplesmente falar. É conseguir falar e continuar conectado com a pessoa que está ouvindo.
E onde entra o meio liberal nessa história?
Naturalmente, o meio liberal esteve presente em várias conversas da Imersão. Muitos dos participantes já vivem ou demonstram interesse nesse universo. Mas uma das respostas da pesquisa resumiu muito bem algo que acreditamos desde o início. Um participante descreveu a experiência como importante
“como casal e individualmente como pessoas dentro de um relacionamento, independente de ser ou não do meio”.
Essa frase representa exatamente o que queremos construir. Swing, não monogamia ou outros formatos de relacionamento podem trazer desafios específicos, mas ciúme, insegurança, desejo, comunicação, confiança, autonomia, limites e responsabilidade emocional não pertencem ao meio liberal: eles fazem parte dos relacionamentos humanos. A questão nunca foi dizer qual modelo de relacionamento alguém deveria viver. A pergunta é outra: vocês estão conscientes da relação que estão construindo?
O que eles disseram depois da experiência
A festa de “formatura” foi na maior casa de swing do Brasil – a Inner Club – que é parceira de Marina e Marcio há alguns anos. Como bem aprendido durante o dia, a presença na festa estava inclusa na imersão mas não era obrigatória.
Nas respostas da pesquisa também recebemos depoimentos que mostram um pouco do que ficou daquele dia.
“Foi maravilhoso para o casamento! Essencial para o fortalecimento do casal.”
“Foi para outro patamar.”
“Uma excelente ferramenta para tirar dúvidas e esclarecimentos.”
“Marina e Marcio são as pessoas ideais para ajudar nesse processo.”
Todos os participantes que responderam à pesquisa autorizaram a utilização de seus comentários como depoimentos sobre a experiência.
Também recebemos sugestões importantes para as próximas edições. Alguns participantes falaram sobre cadeiras mais confortáveis, um espaço maior, mais tempo para determinados conteúdos, mais interação entre os casais e mais espaço para anotações e perguntas. Também apareceu a sugestão de aprofundar temas relacionados à prevenção de ISTs e redução de riscos. Tudo isso faz parte do processo. Assim como convidamos os casais a olhar para a própria relação, também precisamos olhar para a experiência que criamos e perceber o que pode ser melhorado.
Nós também saímos da Imersão com aprendizados
Ao final, talvez a maior conclusão da primeira Imersão Entre Casais Liberais não esteja nas notas recebidas, mas nas conversas que continuaram depois dela. Alguns participantes disseram que a experiência foi “maravilhosa para o casamento”, outros falaram sobre fortalecimento do casal, esclarecimento de dúvidas e uma mudança na forma de enxergar a própria relação. Para nós, é exatamente aí que começa o trabalho.
Não queremos entregar receitas prontas sobre como duas pessoas deveriam viver juntas. Cada casal possui uma história, desejos, limites, dificuldades e uma forma própria de construir sua relação. Talvez nosso papel seja ajudar essas pessoas a enxergarem melhor a casa que estão construindo, perceber onde estão seus pontos fortes, onde existem rachaduras, o que precisa ser preservado e o que precisa ser reconstruído.
A primeira Imersão terminou no dia 1º de agosto, mas muitas das conversas iniciadas naquele encontro provavelmente continuam acontecendo dentro de casa. E talvez esse seja o melhor resultado que poderíamos esperar. Porque relacionamentos não mudam dentro de uma sala. Eles mudam quando aquilo que percebemos começa a aparecer nas conversas, nas escolhas e nas atitudes do dia a dia.
A qualidade de qualquer relacionamento nunca será maior do que a maturidade emocional das pessoas que o constroem.

