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O Marco que Mudou Nossa História

Marina e Marcio após o fim do anonimato no meio liberal

Durante quase dez anos, eu e Marcio escrevemos sobre swing, sexualidade, relacionamentos e meio liberal sem revelar publicamente quem éramos. O portal crescia, os textos circulavam, os contos acumulavam milhões de leituras e nossas opiniões despertavam identificação, críticas e discussões. Ainda assim, nossos rostos permaneciam fora de cena. Naquele período, isso não era exatamente incomum.

PARÊNTESES: O anonimato faz parte da cultura do meio liberal, principalmente entre casais que frequentavam festas, clubes e encontros sem compartilhar essa parte da vida com amigos, familiares ou colegas de trabalho.

Nós também vivemos assim durante muitos anos. Existia a vida que todo mundo conhecia e existia outra parte, igualmente verdadeira, mas mantida cuidadosamente separada. Durante algum tempo essa divisão funcionou, porque o anonimato nos dava uma sensação de proteção. Só que, à medida que o portal crescia e o nosso envolvimento com o meio liberal se tornava cada vez mais profundo, aquela proteção começou a cobrar um preço.

Quando o anonimato deixou de proteger

No início, esconder nossa identidade parecia necessário. Havia profissão, família, filhos e uma série de relações que poderiam ser afetadas por uma exposição que, naquela época, tinha um peso muito diferente do que tem hoje. Ser publicamente associado ao swing ainda carrega um estigma enorme, e não tínhamos como prever quais consequências isso poderia trazer.

Ao mesmo tempo, manter o anonimato exigia atenção permanente. Fotografias precisavam ser escolhidas com cuidado, entrevistas tinham limitações, histórias precisavam ser contadas sem deixar pistas demais e qualquer aproximação entre nossa vida pública e o portal gerava preocupação. Aos poucos, comecei a perceber que existia uma diferença enorme entre preservar a privacidade e viver escondida.

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Privacidade é decidir o que você quer compartilhar sobre si. Segredo é sentir que determinada parte da sua vida não é digna de ser vivida. Essa diferença começou a pesar cada vez mais, principalmente porque grande parte do nosso trabalho era justamente defender liberdade, autonomia, sexualidade sem culpa e o direito de cada pessoa viver escolhas consensuais sem ser reduzida ou julgada por elas.

A contradição começou a incomodar

Com o passar dos anos, ficou difícil ignorar a contradição. Eu escrevia sobre liberdade, criticava o preconceito contra quem vivia relações não tradicionais, falava sobre a importância de assumir desejos e escolhas com responsabilidade, mas continuava com medo de que alguém descobrisse quem estava por trás do portal.

Isso não significa que eu ache que todo mundo deva tornar pública sua vida sexual ou sua participação no meio liberal. Nunca pensei assim. Cada pessoa precisa avaliar o próprio contexto, os riscos envolvidos e o quanto deseja compartilhar. No nosso caso, porém, o anonimato já não parecia mais uma escolha confortável. Parecia apenas um hábito que tínhamos medo de abandonar.

Muito antes de 2020, eu já sentia que estávamos prontos para mudar isso. Talvez não soubéssemos exatamente quando ou de que maneira faríamos, mas a vontade de parar de esconder uma parte tão importante da nossa história já estava presente. Faltava apenas o acontecimento que tornaria impossível continuar adiando.

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Setembro de 2020 mudou tudo

E esse acontecimento veio, curiosamente, em setembro. Em setembro de 2020, aparecemos em uma matéria publicada na home do UOL. Até ali ainda tentávamos manter alguma separação entre Marina e Marcio do portal e nossas identidades fora daquele universo.

Ser reconhecido acelerou um processo que já estava em andamento. O anonimato deixou de ser uma escolha possível e, pela primeira vez, tivemos que lidar concretamente com aquilo que durante anos imaginávamos como um cenário quase catastrófico. Quem vai julgar? Quem vai se afastar? Quem vai comentar? Quem vai entender? Todas essas perguntas que carregávamos havia muito tempo finalmente encontraram a realidade.

E sabem de uma coisa? A realidade foi bem menos assustadora do que imaginávamos.

Percebemos que boa parte do medo estava na nossa própria cabeça. E quando assumimos nossa identidade liberal, nos libertamos! Quando paramos de nos esconder, a sensação que surgiu foi de alívio. Não precisávamos mais controlar fotografias, administrar versões diferentes da nossa vida ou imaginar o que aconteceria se alguém juntasse as peças. Podíamos simplesmente ser quem éramos, sem precisar transformar isso em anúncio, confissão ou espetáculo.

O melhor orgasmo que o meio nos deu

Eu costumo brincar que sair do anonimato foi um dos melhores orgasmos que o meio liberal já nos proporcionou, e há bastante verdade nessa frase. Não teve quarto, festa ou qualquer experiência sexual envolvida. O prazer estava em finalmente poder respirar sem medo de ser descoberta.

Depois de tantos anos convivendo com a ideia de que alguma coisa poderia desmoronar se nossa identidade viesse a público, descobrir que a vida simplesmente continuava foi profundamente libertador. Aquilo que parecia representar uma ameaça acabou se tornando um dos maiores pontos de virada da nossa história.

Foi também nesse momento que percebi com mais clareza que a vergonha nunca esteve naquilo que vivíamos, mas no peso social que aprendemos a associar a essa vivência. Quando deixamos de esconder, deixamos também de permitir que esse medo conduzisse nossas escolhas.

Quando o portal ganhou rosto

Para o portal, o fim do anonimato foi um divisor de águas. Até então, milhares de pessoas conheciam nossas opiniões, nossas experiências, nossas críticas e até detalhes íntimos da nossa vida, mas não necessariamente sabiam quem éramos. De certa maneira, Marina e Marcio existiam como personagens construídos pelos próprios textos.

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Quando mostramos nossos rostos, essa relação mudou. O conteúdo passou a ter autores identificáveis e isso abriu possibilidades que dificilmente existiriam enquanto permanecêssemos escondidos. Vieram vídeos, entrevistas, lives, eventos, palestras e, mais tarde, o Ponto Z Podcast. O trabalho deixou de estar limitado à escrita e ganhou novas formas de presença.

Ao mesmo tempo, assumir a identidade também aumentou nossa responsabilidade. É muito diferente publicar uma opinião protegida pelo anonimato e sustentar aquela mesma opinião com nome, rosto e trajetória. As críticas ficam mais pessoais e a exposição aumenta, mas existe algo muito poderoso em se apropriar das coisas que falamos e defendemos.

O impacto dentro da nossa família

Uma das consequências mais profundas desse momento aconteceu dentro da família. Quando revelamos essa parte da nossa vida aos nossos filhos, percebemos que a abertura também modificou a forma como eles se relacionavam conosco. Assuntos que antes poderiam parecer difíceis começaram a surgir com mais naturalidade.

Ao perceberem que os próprios pais conseguiam conversar sobre temas complexos sem vergonha e sem julgamento imediato, eles também passaram a se sentir mais seguros para trazer questões que talvez antes preferissem guardar. Nesse sentido, aquilo que durante anos temíamos que pudesse provocar distância acabou produzindo o efeito contrário: nossa relação com eles ficou mais próxima, mais franca e mais unida do que nunca.

Mas existiu também um lado B, e seria desonesto contar essa história sem mencioná-lo. Alguns parentes se afastaram depois que deixamos de esconder quem éramos. Não foi fácil perceber isso, embora de alguma forma já soubéssemos que poderia acontecer. O fim do anonimato acabou funcionando também como um filtro nas relações. Algumas pessoas que diziam nos amar demonstraram que esse amor tinha limites muito claros e, em certos casos, parecia estar mais ligado ao que representávamos, ao que fazíamos por elas ou ao que podíamos oferecer do que à aceitação de quem realmente éramos.

Sair do anonimato nos aproximou de quem conseguia nos enxergar por inteiro e revelou relações que dependiam, ainda que nunca tivessem sido apresentadas dessa maneira, de que continuássemos cabendo em determinada expectativa. Perdemos algumas proximidades, sim, mas também deixamos de gastar energia com relações que só podem existir numa versão editada de nós mesmos.

No fim, nossa família não ficou simplesmente “mais unida” de uma forma idealizada. Ela se reorganizou. Alguns laços se fortaleceram, outros se romperam, e aprendemos que liberdade também tem esse preço:

quando você deixa de esconder partes importantes de quem é, dá às pessoas a possibilidade de escolher se querem continuar ao seu lado conhecendo a história completa.

E nós também passamos a ter o direito de escolher quem realmente queríamos por perto.

Um dos maiores marcos desses 15 anos

Hoje é difícil imaginar o portal sem nossos rostos, assim como é difícil imaginar o Ponto Z sem Marina e Marcio diante das câmeras ou nosso trabalho atual acontecendo enquanto tentávamos manter duas vidas separadas. Quando olho para os 15 anos do portal, o fim do anonimato aparece naturalmente como um dos maiores marcos dessa trajetória.

Não porque tenha transformado nossa vida em algo público, mas porque devolveu a nós o poder, que antes era determinado pelo medo. Continuamos tendo nossa intimidade, nossos limites e coisas que pertencem apenas a nós. A diferença é que deixamos de viver como se ter múltiplas relações honestas precisasse ser escondido para que pudéssemos existir.

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